Alexandrino Brochado
Foi o Prof. Mendes da Silva um grande artista pintor com quem tive a honra de contactar muito de perto e poder melhor dimensionar o seu talento.
Quando, no dia 1 de Janeiro de 1953, tomei conta da Reitoria da Capela das Almas, verifiquei que o Painel do altar-mor havia sido repintado por qualquer pintor sem gosto e sem mérito. Havia sido estragado, numa palavra.
O painel, que representa a Ascensão do Senhor, é obra do pintor Joaquim Rafael. Foi pintado em 1815. Entendi que essa barbaridade artística devia ser remediada. Para tanto, recorri ao senhor D. Domingos de Pinho Brandão, grande mestre de arte e arqueologia, que logo me indicou o Professor Mendes da Silva como sendo o único perito, no norte, capaz de restituir o painel à sua pureza primitiva.
O Professor Mendes da Silva aceitou o encargo e durante vários meses seguidos trabalhou com entusiasmo e persistência no restauro do painel para que pudesse ser restituído à sua beleza e verdade pictórica primitivas adulteradas por pessoas sem gosto e sem escrúpulos.
Na verdade, sobre e autêntica e verdadeira pintura de Joaquim Rafael foi repintada outra Ascenção do Senhor sem beleza alguma, obra de qualquer artista sem nome e sem valor. Foi necessário alterar a segunda camada de tinta, destruir a segunda pintura, para que ficasse apenas (e só) a primeira. Foi uma obra morosa, difícil e delicada. Graças ao saber e à paciência (verdadeiramente beneditina) do pintor Professor Mendes da Silva, o painel da Capela das Almas foi restituído à sua beleza primitiva, tal qual saiu das mãos do pintor Joaquim Rafael e lá está com toda a sua beleza e suavidade de cores.
Voltei a contactar o Professor Mendes da Silva quando realizei um leilão de quadros de pintores de nome, no Ateneu Comercial do Porto, a favor da Cáritas.
O Professor Mendes da Silva, generosamente, ofereceu um lindo quadro (óleo) de flores, que foi um dos mais disputados no referido leilão do Ateneu.
Mais tarde tive um último encontro com o Professor Mendes da Silva no meu escritório. Mostrou desejo de pintar o meu retrato, o que muito me desvaneceu. Nessa altura trazia obras na sai casa e no seu atelier. Logo que elas terminassem, convidava-me a almoçar com ele e depois começava a pintar o meu retrato. Aceitei o que para mim era uma grande honra, agradeci e fiquei a aguardar o fim das obras para me deslocar à casa do Professor Mendes da Silva.
Só que as contas de Deus, por vezes, são diferentes das contas dos homens. Um dia fui surpreendido pela infausta notícia de que o Professor Mendes da Silva havia falecido. Fiquei muito triste. O Professor Mendes da Silva era um grande artista, e os grandes artistas nunca haviam de morrer.
Partira para Deus sem realizar aquele pequeno desejo que para mim era muito grande: pintar o meu retrato.