C. F.
1. Agustina de Bessa Luís foi a escritora escolhida para receber a primeira homenagem a escritores que a organização da Feira do Livro do Porto promoveu este ano e projecta manter também em anos subsequentes. Não se pode deixar de louvar a escolha, sobretudo porque, apesar da extensão, da qualidade, da abrangência temática e da notoriedade da obra de Agustina, ainda lhe falta uma grande congratulação nacional e internacional. E nem os numerosos prémios já recebidos, com destaque para o Prémio D. Dinis (O Mosteiro, 1981) e o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (Os Meninos de Ouro, 1984), invalidam a necessidade de um reconhecimento mais universal. Mas como ela diz que "nasci velha e agora cada vez sou mais criança", pode ser que um dia destes a distraída inteligência nacional acabe por lhe reconhecer a extraordinária veia criativa que tem vindo a manifestar ao longo do seu já longo percurso literário. Mesmo tida conta de que o grande reconhecimento de um autor é sempre a leitura dos livros que escreve.
Em pleno dez de Junho, enquanto outros lá longe no Atlântico recebiam as condecorações oficiais, a homenagem prestada pela Feira do Livro à romancista centrou-se essencialmente numa apresentação do seu último romance, Os Espaços em branco, apresentação cometida a Arnaldo Saraiva, conhecido e reconhecido professor da Faculdade de Letras do Porto (e de outras Escolas Superiores, como a Universidade Católica), que, sendo especialista em Literatura brasileira, o começa por ser em literatura portuguesa, numa constante atenção tanto à sua antiguidade ou raízes, como à sua novidade ou ao abrir de novos caminhos.
2. A obra de Agustina começa nos anos distantes de 1948, com a publicação da novela Mundo Fechado, novela em que ensaia já o que se irá tornar o seu género literário preferido e quase único: o romance. De facto, já ali se nota o gosto para a criação e tratamento psicológico e comportamental das personagens, com relevo para as personagens femininas. Em breve se tornou emblemático o seu romance A Sibila (1954), retrato humano e social, retrato de pessoas e mentalidades e de uma cultura rural que modelava as capacidadades e as dinâmicas das almas, em que se cruzam as tradições e os mitos culturais populares. A partir de A Sibila, que gerações de estudantes analisaram ao longo de bastantes anos no ensino secundário e que agora parece abandonada (dizem que é muito difícil e a suprema tendência "educativa" actual é a da facilidade), nunca mais foi possível esquecer ou secundarizar o trabalho literário desta escritora, nascida em Vila Meã mas filha adoptiva da cidade do Porto.
A obra de Agustina, que tem raízes fundas na reflexão sobre o universo rural e cultural do povo, lido pelos olhos distanciados de quem dele veio mas que se elevou nas dinâmicas culturais do seu entendimento, adquiriu depois duas dimensões fundamentais: a análise dos acontecimentos emergentes da transformação política, mas sobretudo social, mental e cultural nascida do levantamento de Abril de 1974 (As Fúrias, Os Meninos de Ouro); e a incursão em duas perspectivas diferentes de uma leitura da História: o romance de recriação de épocas ou personalidades marcantes e a biografia de figuras marcantes ou míticas, em diversificadas áreas da existência, como o Marquês de Pombal, Santo António ou Vieira da Silva.
3. Em 1989 a Casa editora das obras de Agustina (Guimarãres Editores) publicava uma curiosa recompilação de recolha de frases emblemáticas, retiradas dos livros da autora, a que deu o título de Aforismos, e que revela uma das facetas mais interessantes da escritora: o gosto em interpretar o mundo e as pessoas através de uma espécie de jactos de luz, que mais que afirmativos são frequentemente interrogativos: pergunta-se e perguntam-nos sobre o âmago da condição humana e sobre as raízes dos seus complexos comportamentos. "Nunca vi ninguém como os apaixonados para aderirem à virtude", um desses aforismos, que "é uma lição, não o pretexto para uma pirueta", como diz, e que lhe imprime o designativo de "vitalista" com que se intitulou esta referência. É a vital e misteriosa condição humana, na emergência das suas grandezas e contradições de pensamento e de instinto, de impulsos vitais e intelectuais que a escrita de Agustina analisa.
4. Não deixa de ser significativa o encontro, a associação, a cumplicidade, que já se verifica desde Francisca, adaptação do romance Fanny Owen (1979) em torno dos impulsivos amores juvenis de Camilo, entre Agustina e o cineasta Manoel de Oliveira: cada um na sua forma de expressão, a escrita e o cinema, criam uma extraordinária cumplicidade entre a imagem e a palavra: muitos dos filmes de Oliveira, em que a imagem vive da palavra e interpreta a palavra, têm diálogos escritos por Agustina. Poder-se-á dizer que Oliveira está para o cinema como Agustina para o romance: ambos rejeitam as expressões da facilidade ou do populismo imediatista, para avançarem corajosamente com os projectos que sabem impopulares, enfrentando os ventos tempestuosos das críticas ou das dificuldades que uma sociedade do efémero tem em compreender as incursões nos domínios do essencial da vida, mesmo dos seus mais fundos problemas e das suas mais drásticas contradições entre o amor e o ódio, o físico e o espiritual, a criação e a vivência imediatista do quotidiano, as pulsões instintivas e o sentido da vida e da morte.
5. Na apresentação que fez da última obra da Agustina, Os espaços em branco. Arnaldo Saraiva salientou, em confronto com o carácter histórico de outras obras, que esta é marcada pela premente actualidade, de uma sociedade em que a marginalização se tornou regra: aí se reflectem os sem-abrigo, os toxicodependentes, os imigrantes de Leste, novos pobres e novos ricos, e também a "sexualidade triste recente", o aparecimento de novos comportamentos pessoais e sociais... Tudo isso leva o apresentador a tirar várias conclusões: que a personagem protagonista deste romance, Camila, merece entrar desde já para a galeria das grandes personagens do romance português; que para a autora a escrita é uma actividade muito séria; e que ler "ler Agustina, além de um prazer, é uma aprendizagem de nós mesmos, da sociedade portuguesa e do homem universal".
PS: Encerraram as feiras do livro. Segundo testemunhos lidos e ouvidos, o sentimento dos editores foi de uma certa frustração, salientando o decréscimo visível de visitantes e de comprantes. Quando se instala a crise económica (ou a sensação ou convicção de que ela existe) os primeiros cortes fazem-se na cultura. Mas não se fazem no espectáculo. É também um sintoma de tempos e mentalidades.