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    PRAÇA DE SÃO PEDRO

    Pacheco Gonçalves


    De José António a João Baptista

    Não eram fáceis, para os católicos italianos, aqueles agitados tempos do Rissorgimento, o movimento abertamente laicista que congregava os patriotas da península na luta pela unificação política da Itália. Os Estados Pontifícios faziam parte desde há muitos séculos daquele imenso mosaico com variadas tradições e dialectos, mas com uma notável coesão geográfica e histórica, linguística e cultural, que era então a Itália. A península encontrava-se cortada a meio pelo Estado da Igreja. Era impossível conceber a Itália unida sem a sua plena integração e sem Roma como capital.
    O cristianismo, na sua forte tradição católica ancorada no papado, constituida sem dúvida uma das mais profundas raízes desde o povo que lutava contra a ocupação austríaca da Lombardia e do Véneto. E eis que o Papa continuava a opor-se frontalmente à unificação italiana, preferindo manter as tradicionais alianças com a monarquia francesa e com o Império austríaco, inimigos da Patria que emergia. Pio IX considerava ter boas razões para resistir aquilo que lhe aparecia como um combate entre forças pro e contra a Igreja. Não se entrevia como poderia ser exercida livremente a missão do papado se este perdesse a independência de que gozava do ponto de vista político-estatal.
    Quando as tropas do Reino de uma Itália já praticamente unificada acabam por ocupar Roma, em 1870, o Papa abandona o Palácio do Quirinal, sede e símbolo do seu poder temporal, para se refugiar no Vaticano, junto do túmulo do Apóstolo Pedro, declarando-se prisioneiro. No ano seguinte, publica o seu Non expedit, proibindo aos católicos qualquer colaboração com os usurpadores, excluindo-os portanto, na prática, da vida política.
    Neste ambiente cheio de tensões e ciladas, não faltaram porém cristãos lúcidos e corajosos que, enfrentando dissabores fora e dentro da Igreja, foram abrindo caminho a uma nova presença cristã no mundo, menos eufeudada a certas áreas políticas, mas não menos empenhada em instaurar tudo em Cristo, promovendo uma sociedade mais justa e esclarecida e uma Igreja presente e activa no campo educativo e informativo, e até mesmo empresarial e financeiro.
    José António Tovini, o leigo que João Paulo II beatificou domingo passado, em Bréscia, foi um caso exemplar desta capacidade de avançar com iniciativas audaciosas para a época, com uma largueza de vistas pouco comum. Foi graças a ele que Bréscia se tornou, em Itália, o pólo daquele catolicismo social que se desenvolvia então em diversos países da Europa. Nesta mesma cidade de Lombardia vivia, nesses mesmos anos, outra notável figura de leigo profundamente católico, esclarecido, activo: Jorge Montini, pai de um tal João Baptista que fezestudos brilhantes e entrou para o Seminário...

    Dinamismo empreendedor

    De origens modestas, estudando em condições difíceis, José Antonio Tovini consegui formar-se em Direito. Tinha 34 anos quando se casou, união de que nasceram dez filhos (um jesuíta e duas religiosas). Trabalhando como advogado em Bréscia, vai alargando cada vez mais a sua actividade em variados campos: económico, social, escolar, administrativo.
    Em 1878 contribui decididamente para a fundação do quotidiano II Cittadino (de que se torna director o pai do futuro Paulo VI). Em 1882 é designado como vereador municipal (o primeiro e único católico a assumir então tal função). Empenha-se em favorecer a criação de importantes obras públicas, nomeadamente uma linha de caminho-de-ferro para ligar entre si as localidades do concelho.
    Cria também Caixas de Depósitos, para combater a usura. Funda Círculos Operários, entre os quais o mais antigo que se conheça expressamente destinado às operárias. Em 1882 cria o primeiro Jardim de Infância, seguindo-se depois outras instituições escolares: Colégios, Círculos Universitários, Residências para estudantes. Em 1890 surge, por sua iniciativa, a Obra para a conservação da fé nas escolas de Itália, e a revista Fé e Escola. Pensando nos professores, cria mesmo uma Companhia de Seguros. Em 1893 funda a revista pedagógica e didáctica Escola Italiana Moderna. Num congresso nacional em Fiesole, lança a ideia da crição de uma Universidade Católica (projecto que só tomaria corpo 30anos depois).
    Todas estas iniciativas exigiram verbas, que Tovini sabia encontrar nos lucors das instituições bancárias por ele criadas, cujos estatutos previam expressamente o financiamento de instituições católicas. Nos últimos anos da sua vida, as iniciativas no campo economico-finaceiro assumem proporções cada vez maiores, com a criação do Banco de São Paulo (Bréscia, 1888) e do Banco Ambrosiano, em Milão (1896). Neste último período colabora também na fundação da União Leão XIII de estudantes brescianos, que está na origem da FUCI a Federação Universitária Católica Italiana (de que foi assistente eclesiático nacional Mons. Montini, futuro Paulo VI).
    «Combatendo o bom combate» em tantas e tão variadas frentes, não admira que tenha morrido precocemente, em Bréscia, em 1897, com 55 anos de idade. Meses depois nascia na mesma cidade João Baptista Montini, num lar onde se respirava idêntico espírito de laicado católico activo e empreendedor, aberto aos tempos modernos. Unindo estas duas figuras, numa mesma celebração, domindo passado, em Bréscia, João Paulo II sublinhou a importância do laicado e da sua missão no mundo, lado a lado com pastores profundamente animados de fé e de esperança, capazes de ajudar a ler os sinais dos tempos e de rasgar novos caminhos.