Provocações E Execuções
O Médio Oriente voltou a ser sacudido por explosões de raiva, provocadas, desta vez, pela execução do último líder do Hamas, uma execução que - deve dizer-se - não constituiu qualquer surpresa. Na verdade, desde que Abdelaziz al Rantissi tomou o lugar do velho e tetraplégico xeque Yassin, era certo e sabido que, mais dia menos dia, ele teria o mesmo fim do seu antecessor. Os helicópteros israelitas haviam falhado uma vez, em Junho do ano passado, ainda não tinha ele assumido as funções, mas dificilmente errariam uma segunda. Assim aconteceu: Rantissi pouco tempo teve para exercer a liderança do Hamas. Quem ouviu as suas promessas de vingança e de terror, logo a seguir à execução de Yassin, percebeu, claramente, que a resposta não tardaria.
Só numa cultura promotora do suicídio, é que se compreende a estratégia de provocação assumida geralmente pelos líderes dos movimentos radicais palestinianos e muçulmanos. Quando estes dão a cara na televisão para anunciar ondas de sangue entre os judeus, colocam-se automaticamente na mira de um qualquer helicóptero israelita que, com mais ou menos tempo, acabará por ser informado do seu paradeiro ou das suas deslocações. Algumas notícias dão conta da importância que a vigilância por satélite terá nestas informações, mas certamente que haverá espiões que trabalham para Israel, muito próximo das direcções desses movimentos. Não há outra explicação para a descoberta do carro procurado do alto, no meio de uma circulação normal.
Parece que o novo sucessor na liderança do Hamas não vai seguir a mesma estratégia pública de exposição cultivada por Yassin e de Rantissi, mas temos a certeza de que os israelitas não mudarão a sua. Seja quem for o novo líder, mesmo na clandestinidade, paira sobre a sua cabeça a mesma sentença de morte, porque depois do anúncio de torrentes de sangue, a ameaça é agora de "vulcões de sangue" entre os judeus.
Neste cenário de provocações e de execuções anunciadas, vale a pena ler as afirmações que o "representante intelectual" da Al Qaeda na Europa faz no último número da revista "Pública". Se alguém não sabia dos limites a que pode chegar a lógica do absurdo, ficou a saber. São afirmações irracionais, doentias, incendiárias, mas conscientes e, por isso, verdadeiramente criminosas; são autênticas declarações de guerra contra a maior parte da população do mundo. Apesar disso, ele nem sequer se escondeu no anonimato. O seu rosto enche mesmo a capa da revista.
Certamente que uma sociedade civilizada não pode cultivar a estratégia das execuções selectivas, mas um homem destes deseja, certamente, acrescentar o seu nome à lista dos "mártires"....
António José da Silva