[ Cultura ]



    Elias, op. 70, Oratória

    de Félix Mendelssohn-Bartholdy


    Mantendo uma tradição já longa de alguns anos, o Coro da Sé Catedral do Porto e a Orquestra Nacional do Porto juntaram-se, novamente neste período de Páscoa, para apresentar mais uma das grandes obras do repertório coral-sinfónico: Elias de Félix Mendelssohn-Bartholdy. A apresentação que teve lugar na Igreja de Ermesinde (12 de Abril) e na Sé de Braga (15 de Abril), é repetida na Igreja de Espinho (hoje, 16 de Abril) e na Igreja da Lapa (Sexta-feira Santa, dia 18 de Abril). Participam os solistas solistas Sílvia Correia Mateus, soprano, Kathrin Hildebrandt, alto, Rui Taveira, tenor e Jorge Vaz de Carvalho, baixo, sob a direcção do maestro alemão Wolfgang Schäfer.

    1. Seja a primeira palavra para saudar, mais uma vez, a colaboração entre a Orquestra Nacional do Porto e o Coro da Sé, com os necessários apoios de vários mecenas, a apresentação de uma obra máxima do repertório coral-sinfónico, com a participação de alguns dos melhores solistas portugueses. Acresce um factor não despiciendo: a obra é apresentada gratuitamente ao público de várias cidades do norte (Ermesinde, Espinho, Braga e Porto), proporcionando assim tanto a proclamada "descentralização", como a possibilidade de ser apreciada não apenas pelos habituais melómanos, mas pelo povo, contribuindo para uma formação musical que será certamente obra de muitas décadas, talvez de séculos...
    Está claro que se a obra fosse realizada em Lisboa, por orquestras "oficiais" do meio oficial, encheria certamente as páginas dos jornais com louvores e méritos. Cá no norte, poucos dirão que será certamente uma das primeiras vezes que a obra é executada em Portugal, conduzida por uma entidade não oficial, nem profissional, que reúne a colaboração de uma orquestra nacional e de solistas de mérito, sob a direcção de um maestro especialista na obra em causa. Haverá até quem afirme displicentemente que isso são coisas de música de igreja, não há que lhes dar demasiada importância. Também não se entende por que razão a televisão não aproveita uma realização como esta para efectuar uma gravação que poderia usar e disponibilizar. Parece que a RDP fará uma transmissão directa do concerto do dia 18: se assim for, os nossos aplausos.

    2. Elias é tecnicamente uma oratória (composição musical para ser cantada por solistas, coro e orquestra, especialmente de carácter religioso, mas também profano - histórico ou mitológico - que inclui meditações ou interiorizações sobre o sentido dos acontecimentos, como árias ou corais). Porém, este Elias (cujo texto terá sido elaborado pelo próprio Mendelssohn) bem poderia ser considerado, em muitas passagens, uma verdadeira ópera, tal o seu dramatismo e a expressão de conflitos (por exemplo na polémica de Elias com os sacerdotes de Baal), ou um verdadeiro drama, em que o coro desempenha um dos papéis mais salientes.
    A oratória narra vários episódios da vida do profeta Elias, cuja acção decorre na fase conturbada de Israel que se segue à morte de Salomão (I Reis, cap.17 e sg.). O autor dividiu o drama em quadros: Maldição de Elias, Lamentação, prece e promessa, o milagre da ressurreição (do filho da viúva), o milagre do fogo (conflito com os profetas de Baal, o Deus único e os ídolos), o milagre da chuva, Exortação e consolação ao povo, Ameaças e desânimo de Elias, Aparição de Deus e assunção de Elias, Redenção e anúncio. Estes últimos quadros, profundamente espirituais e de funda unção religiosa, incluem já outras passagens bíblicas: de exaltação e louvor (como o Santo é o Senhor ou o surgirá tua luz como a aurora), com que se conclui a oratória. A construção musical possui uma forte expressividade e uma profusão dramática, em que o diálogo com o coro e a orquestra completa o dramatismo das árias cantadas pelos solistas.

    3. É importante que se saliente o entrosamento da execução musical: com uma preparação em separado, o maestro, profundo conhecedor da obra, consegue uma notável harmonia do conjunto solistas, coro e orquestra. Os solistas, com realce para Sílvia Mateus e Jorge Vaz de Carvalho (cujas intervenções assumem preponderância no papel de Elias) exibiram não só o domínio musical e vocal, mas também um sentido da interpretação e expressividade do conteúdo dramático do texto - o que importa salientar, porque por vezes é esquecido. Uma palavra para a coragem do coro da Sé e ao maestro Eugénio Amorim em assumir uma tão grande responsabilidade: esta não é uma obra de circunstância, é uma obra de fundo. A capacidade de a executar com a qualidade e equilíbrio com que foi feita denota como os "amadores" sabem também ser profissionais. Ficou-se com a impressão de que o maestro alemão se sentia ufano com o prestação conseguida pelo conjunto.
    E o mais admirável: quem assistiu a este concerto (umas largas centenas de pessoas) era gente do povo. Quem tenha visto o entusiasmo com que aplaudiram pode interiorizar bem a consciência de que o povo entende e vive a grande música e vibra com ela.

    C. F.