[ Especial ]



    Olhar(es)

    Exame da Solidariedade 


    Cada vez se torna mais badalada, quanto mais necessária, a Solidariedade! Nem sempre se entende a mesma devidamente, mistifica-se por sendas próximas a outros termos filantrópicos. Por muita pobreza e falta de condições condignas à condição humana, a solidariedade não chega à Caridade, que tudo completa e complementa! Todavia, sem ofuscar a Caridade – que é inquebrantável, eterna e genuína –, a Solidariedade ainda chumba tantos e tantos, individual e colectivamente, no exame do bem-fazer e da construção do bem comum… E tantos que, de facto, poderiam e deveriam ajudar, mas que, fatidicamente, não o fazem. Talvez porque entendem somente a ‘solidariedade’ num dos significados patentes no dicionário: “Direito de reclamar só para si o que se deve a todos”. Face a esta tradução, há uma outra mais distinta: “Reciprocidade de obrigações e interesses”… A essência e abrangência da solidariedade, no mundo actual, ainda é “carta fora do baralho”.
    Mas vejamos, o termo ‘solidariedade’, etimologicamente referido ao domínio da economia, brota de Pio XII, ecoando nos documentos papais de âmbito social. Aperfeiçoa-se, ulteriormente, na lógica grupal dos constituintes actuarem como partes de um corpo sólido e íntegro. A exigência desta vivência situa-se no franco compromisso de cada um ser inteiramente responsável pelo todo. A solidariedade, mais do que “partilha equilibrada”, é “construção participada”.
    Pesch chegou a criar um novo termo: “solidarismo”, para enquadrar a solidariedade tipicamente católica, distanciada dos antónimos colectivismo e individualismo. Apesar do conceito não ter vincado, franqueou-se como fresca ramificação no entendimento desta indubitável virtude cristã, a solidariedade, como definiu João Paulo II. Renovado sentido lhe deu em apontar este dever a uma transformação inerente e necessária de fraternidade.
    A solidariedade não é uma técnica, mas um valor donde resultam os técnicos sociais. Ao contrário da sociabilidade, corre o sério risco de ser reduzida a um mero sentimento, pois ultrapassa-o em grande escala, configurando-se na edificação do bem comum, na coroação da gratuidade, no respeito e dignidade das pessoas, pelas pessoas e com as pessoas. A solidariedade procura sempre ser uma aspiração, uma verdadeira opção, não se refugiando nas utopias ou profecias. Quer demolir, definitivamente, tantos contravalores que se instalam no seio de desigualdades tremendas e acrescidas. Caracterize-se o ser solidário, conforme a feliz e profunda expressão conciliar, num ser “perito da humanidade”. Tantos que ainda vivem na pobreza cognitiva e de espírito, visto não percepcionarem e accionarem esta riqueza solidária. Não precisa de grandes meios, bens ou recursos. Está ao alcance de todos!
    É só deixar que a franqueza do coração opere e, assim, brilhará a Humanidade no exame da Solidariedade!

    André Rubim Rangel
    arrangel@gmail.com