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    OPINIÃO COM NOME PRÓPPRIO

    Monsenhor Miguel Sampaio


    Testemunho de um ex-aluno No sintomático e festivo dia de Todos-os-Santos, suave e inesperadamente, partiu para Deus, na casa do "Bom Pastor" de Ermesinde, a grande figura de Homem e Sacerdote - Monsenhor Miguel Sampaio.
    Quem escreve estas linhas, na companhia de seu único condiscípulo, o senhor Padre Germano, antigo director do Colégio João de Deus e um casal amigo, teve a dita de almoçar no dia 31 de Outubro com Mons. Miguel Sampaio que, sistematicamente, visitava a sua irmã todos os quinze dias e outros familiares na sua casa de "Castro Velho", em Santo Adrião de Vizela.
    Almoçámos todos com a boa disposição habitual, com aquele tom de leveza, cultura e alegria, com que Mons. Miguel Sampaio sabia proporcionar aos seus convidados. Depois de algumas horas de convivência, regressámos a Ermesinde, à casa do "Bom Pastor", e despedimo-nos do Mons. Miguel por volta das 18,30 horas. Tudo tinha corrido, aparentemente, muito bem. Na noite desse Domingo, ele começou a sentir-se algo indisposto; por volta das 19 horas e, à falta de outros médicos, foi chamado um seu sobrinho, Doutor Pedro, professor na faculdade de Medicina do Porto, que aconselhou o seu internamento e lhe prescreveu repouso. Mas Mons. Miguel começou a sentir-se um pouco melhor e não quis ser internado.
    Na manhã do dia de Todos-os-Santos, levantou-se e, ao começar a tomar o pequeno almoço, que a Irmã superiora das Religiosas do "Bom Pastor" lhe levou ao quarto, subitamente desfaleceu. Assim partiu para o Pai, rodeado de carinho das irmãs que o assistiam. Desejava morrer, sem dar grande trabalho às pessoas, e até num dia espiritualmente evocativo, de acordo com os valores místicos da sua espiritualidade.
    Miguel Estevão de Faria Sampaio nasceu na freguesia de Santo Adrião de Vizela, Felgueiras, a 17 de Abril de 1910, frequentou os seminários da diocese do Porto e foi um aluno distintíssimo, chegando a obter a classificação máxima (Accessit); e foi ordenado na Catedral do Porto, em Outubro de 1932.
    Apreciado e admirado pelo senhor D. António Meireles, foi nomeado para o Colégio de Ermesinde, como professor e chefe do disciplina. Tencionava o Bispo mandá-lo estudar Direito para Coimbra, mas Mons. Miguel, preocupado com a preparação das aulas e o exercício do cargo de chefe de disciplina e, não tendo grande entusiasmo pela promoção, acabou por não poder corresponder ao desiderato do seu Bispo. Depois de estar uns anos ao serviço do Colégio, foi nomeado por D. António Meireles, vice-reitor do jovem Seminário de Trancoso, que D. António fundara em Vila Nova de Gaia. Aqui permaneceu mais de uma dezena de anos como vice-reitor, voltando a ser nomeado por D. Agostinho de Sousa em 1947, como director do Colégio e seminário de Ermesinde, cargo que exerceu até 1960.
    Foi este período áureo da acção do padre Miguel Sampaio, que se traduziu na reestruturação da vida do Colégio, no aumento significativo dos alunos, na melhoria de novos métodos e instalações escolares e no desenvolvimento da cultura física, preparando novos campos de jogos para a prática de desportos vários, bem como na construção de uma piscina, notável inovação para a época. Foi construído, ainda, um novo pavilhão destinado a acolher e a leccionar os alunos do 3º ciclo, 7º ano de então. No aspecto agrícola, melhoraram-se métodos de cultura da Quinta. E, naqueles naqueles tempos de carências generalizadas, o Padre Miguel criou uma espécie de sopa para os pobres, para muitas famílias de Ermesinde que eram socorridas pelo Colégio. Tendo sido o P. Miguel Sampaio amigo e admirador do Padre Américo do Gaiato, contribuiu para a construção de dois núcleos de várias casas, a expensas do Colégio, festivamente inauguradas e benzidas pelo próprio Padre Américo e entregues ao "Património dos Pobres", para alojar famílias de Ermesinde. Profundamente bondoso, a prática de caridade reflectia-se na maneira como recebia, indistintamente, todas as pessoas que solicitavam a sua ajuda para solucionar qualquer problema de carácter material ou espiritual. Valia-se, para isto, muitas vezes, das numerosíssimas relações sociais, a que recorria para dar resposta aos numerosos pedidos que lhe faziam, quer no domínio de empregos, quer na admissão de alunos, quer no abrandamento dos custos das pensões, quer para solucionar problemas de carácter espiritual.
    O Padre Miguel Sampaio era sempre uma porta aberta para ajudar a solucionar qualquer problema que lhe fosse posto. Mas a preocupação que o dominava era, sobretudo, a preparação moral e intelectual dos alunos e outras pessoas relacionadas directamente com a vida do Colégio. Teve sempre um padre especialmente encarregado da formação moral dos alunos. Tinha nesta altura um enorme prestígio. As célebres homilias do Domingo, na Igreja da Trindade, na missa das 11 horas eram muito apreciadas pelos católicos cultos de então, e até pelas classes mais humildes do povo, pela sua profundidade e transparência doutrinal, singeleza e elegância, grangearam-lha o prestígio de um dos principais oradores da cidade do Porto.
    A partir dos anos 60, desempenhou um papel relevante na fundação da instituição "Fraternidade Sacerdotal", contribuindo, decisivamente, para o bom estatuto jurídico que a rege. Embora lhe custasse muito o sacrifico da obediência, pela sua ligação ao Colégio e ao povo de Ermesinde, como se compreende, teve de aceitar, depois de serem feitas várias diligências no sentido contrário, a nomeação como Reitor e Professor do Seminário Maior do Porto, por D. Florentino de Andrade e Silva, nesta altura Administrador Apostólico da Diocese do Porto. Teve de se adaptar a um género de vida bastante diferente daquele a que estava habituado e de fazer uma reciclagem para Professor de Teologia, o que fez, trabalhando muito e actualizando conhecimentos com a aquisição e estudo das melhores obras dos teólogos do Concílio Vaticano II. E desenvolveu no Seminário uma obra notável, concretizada em melhoramentos materiais.
    Visitou modelares seminários no estrangeiro para assimilar o que tinham de mais válido e adaptável na formação moral e intelectual dos seminaristas do Porto. Desenvolveu ainda uma obra de carácter social e beneficente no Seminário, após vários anos de Reitoria, ainda que essas boas intenções tenham sido, algumas vezes, deturpadas, o que o magoou muito, tendo sido o Homem do silêncio.
    Aceitou fazer parte da direcção do Colégio Almeida Garrett, durante alguns anos. Foi também convidado para fazer parte da direcção do Colégio João de Deus, pelo seu condiscípulo Padre Germano, mas acabou por rejeitar. Finalmente, foi-lhe oferecida a capelania da casa-mãe das re1igiosas do Bom Pastor, em Ermesinde, o que Mons. Miguel Sampaio aceitou gostosamente, rejeitando outras ofertas que, nessa altura, lhe foram apresentadas. Aqui passou os dezanove últimos anos da sua vida: por Ermesinde começou e ali veio terminar os seus dias.
    Desenvolveu uma acção notável como capelão dessa casa, como conselheiro, e, sobretudo, pela acção que desenvolveu entre as pessoas que frequentavam a igreja do Bom Pastor. Era notável o entusiasmo com que as pessoas acorriam àquela igreja para o ouvirem, sem excluir as próprias crianças da Catequese do Centro do "Bom Pastor". A sua acção foi notável como capelão e como confessor e director de muitas consciências. Ele foi um polo atracção espiritual, disponível para todas as pessoas que, indistintamente, lhe iam solicitar qualquer forma de intervenção ou de auxílio. E continuou a admiração pela sua figura simpática, caritativa e culta que lhe traria um grande êxito espiritual e social, particularmente pelas homilias na igreja do "Bom Pastor". A bondade, a inteligência, a cultura e a simpatia da sua pessoa eram a chave do êxito espiritual e social da sua figura única no género.
    Partiu para Deus um grande homem, verdadeiro ornamento do clero da Diocese. Foi sepultado no cemitério de Ermesinde, no meio de gente que tanto o estimava, no jazigo das Irmãs do "Bom Pastor", a quem serviu, exercendo um apostolado dedicado e verdadeiramente apostólico e irradiante na zona da igreja do "Bom Pastor", tornando-se credor de imensa gratidão de muita gente. Por minha parte, quero dizer o meu muito obrigado a quem tanto me ajudou na vida, quer pessoalmente, quer a pessoas amigas por quem intercedi e, sobretudo, o bom exemplo que me deu em tudo na vida, tornando-se um paradigma para mim. Tenha paz a sua alma!

    A. Carneiro de Azevedo, padre