[ Cultura ]



    Divagar por Massarelos

    Ilissínio Duarte


    Se foi ver onde era o “extinto” jardim da Cordoaria e ficou desolado, desça a Restauração e quando chegar ao fim encontrará o Largo do Adro com a Igreja de Massarelos. Ali perto existiu a Igreja de Nossa Senhora da Boa-Viagem, de Massarelos, que de ruína o culto passou em 1868 para a Capela do Corpo Santo, provisoriamente. Só que a Igreja da Boa-Viagem nunca foi reconstruída. O nome ficou nos restos da Calçada ligada à Rua do Gólgota até 1571 que separava Cedofeita de Massarelos. A Capela da Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos foi erigida em terrenos cedidos pelo capitão de um navio, como agradecimento a S. Pedro, Gonçalves Telmo, em 1394, que o salvou de um naufrágio.
    Por ali existia o Cais da Paixão, entre a Alameda Basílio Teles – ao tempo Alameda do Armazém do Sal. Foi célebre a Fábrica de Louça de Massarelos fundada em 1766. Ainda há por aí peças dessa fábrica, e algumas reproduções. A Calçada da Boa-Viagem principia na Rua do Bicalho e termina na Rua Capitão Eduardo Romero. Por sua vez a Rua do Bicalho teve origem na Calçada da Arrábida. Bicalho terá nascido na Rua da Bica que existia em 1684.
    Nesta zona houve fundições de ferro, com grandes obras edificadas, como o mercado Ferreira Borges. A Companhia Aliança englobava a Fundição de Massarelos e a do Ouro, em 1895, mas em 1874 já lá havia fundições em nomes individuais, e a Fundição de Massarelos, sem Aliança, já existia em 1875.
    A Fonte de Massarelos construída em 1637 pelo mestre pedreiro Jorge Mendes, custou 18.000 réis. Quanto ao nome de Massarelos, era já usado em 1258 por Dom Vicente de Mazarelos. Tudo isto frente à Alameda Basílio Teles, obra do corregedor Almada.
    Houve problemas entre Massarelos e a Colegiada de Cedofeita, originando intervenção de D. Dinis a 7 de Julho de 1280, de maneira a que Cedofeita tivesse acesso ao sal.
    Basílio Teles nasceu em Massarelos em 1856, esteve envolvido na revolução de 31 de Janeiro, como militante republicano que era.
    Como estamos vendo, a Paróquia de Cedofeita estendia-se a Massarelos, e o Lugar da Pena, hoje Rua da Pena, ainda era dependente de direitos de Cedofeita em 1678, passando totalmente a Cedofeita em 1870. A Quinta da Pena teria sido de Vicente Pedrossem, cavaleiro da Ordem de Cristo, fidalgo da Casa Rela e morreu em 5 de Maio de 1806. Houve transmissões por herança, sendo em 1875 de um Desembargador Novais. Embora com dúvidas, a capela da quinta poderia ser de Nasoni.
    A Rua da Pena principia na Rua Dom Pedro V, e termina na Rua Capitão Eduardo Romero, que organizou Assistência Social da Legião Portuguesa nessa zona do Bicalho, e incluía restaurante. Era à beira das fundições. Muita gente ia lá pelas refeições baratas. Ainda tenho uma vaga ideia do Capitão, e se nunca fui ao restaurante da assistência, nos tempos da falecida Feira Popular do Palácio de Cristal era fino ir jantar à Feira Popular ao restaurante da Legião. Claro que também lá fui. Havia uma especialidade que lá nos atraía, mas já não me lembro qual. Creio que nesse tempo era director do Palácio, Pinto Machado, que tendo participado na revolução da Monarquia do Norte, constava que fora o único oficial não reintegrado no exército embora lhe tivesse sido dado emprego.
    Como se está a ver, de 31 de Janeiro, monarquia, e Legião, há como no restaurante uma ementa variada, diria melhor “avariada”.