C. F.
Um dia destes, num estes bares de passagem rápida junto de uma estação ferroviária, enquanto aguardava a chegada de um amigo, entrei e pedi como frequentemente meia de leite e um bolo de arroz.
- A meia de leite é directa?
Gaguejei. Depois de oportuna reflexão, tão rápida quão profunda, lá lhe disse que sim.
E continuei a reflexão para dentro: haveria meias de leite indirectas? Será que isso do directo terá a ver com a proximidade dos comboios, que também os há directos e semi-directos (se bem que o conceito de semi-directo é um pouco estranho: será que só se dirige até ao meio do percurso?).
Como a única directa que fiz na vida, ao menos nestes tempos mais recentes, foi uma subida ao Monte Sinai, a seguir piedosamente os passos de Moisés, fiquei expectante sobre que directa me esperaria agora.
Disponibilizada a tal directa, verifico que era apenas um café com leite (também nunca entendi por que se chama meia de leite e não meia de café). Aliás o conceito feminino de meia de também me soa a estranho, porque o género aqui é pelo menos arbitrário.
A diferença da tal directa estava em que se tirava o café directamente da máquina para a chávena, e sobre ele se derramava directamente o leite, pelo que também me pareceu que o produto final servido ao consumidor se deveria chamar bi-directa.
Devo dizer que foi bem servido e quente, coisa que nem sempre acontece, porque grande parte dos estabelecimentos em vez de nos servirem leite devidamente aquecido sopram com aquelas máquinas italianas vapor de água para dentro do leite, e depois servem-no carregado de espuma como se fosse cerveja, transformado em metade água, metade leite. Até bem se poderia chamar meia de água...
Estava pois a meia de leite directa bem servida e assim (ou como tal, que agora se diz) foi devidamente tomada e remunerada.
2. Mas não desaparecera o mistério da pergunta.
Porque há uma questão de fundo no que se refere quer ao conceito de meia (porquê meia, se não há nem sapato nem calça? - que pergunta mais estúpida e banal, desculpem lá a inoportuna e pouco imaginativa transmutação semântica), quer ao conceito de directa. Também se diz que não percebes meia, sem se saber que meia é.
Então a tal meia significa que se trataria de metade de uma coisa e metade de outra. Mas, na velha fórmula de disfarçar ou iludir os produtos ou serviços com que as práticas comerciais de muitos ofícios nos brindam, logo se arranjou maneira de transformar o café genuíno e feito na hora noutro produto parecido ou sucedâneo: os restos aglomerados dos cafés anteriores guardados num recipiente, e que depois se aquecem com o tal esguicho de vapor de água que as máquinas italianas sopram para dentro dele. Obtém-se assim um "café" com sabor a velho e a água aquecida, a qual, ao contrário da normal, não é nem inodora, nem insípida, nem incolor.
Ora estes procedimentos, tão frequente nos nossos estabelecimentos, são fruto de uma "cultura" em que o mesquinho se mistura com aquele conceito ancestral e entranhado de poupança que consistia em poupar para servir mal (ou servir mal para poupar).
Ora isso acontece entre nós e se calhar também noutras paragens. Lembro-me sempre de um café que um dia pedi e paguei caro num bar nas terras de França, daquelas que não querem agora a Europa, que era verdadeira água de lavar as castanhas e que tinha já uns bons dias de gestação. Ou seja: o mal não é apenas nosso nem o nosso será o pior.
Mas aqui os vizinhos de ao pé da porta podem não ter bom café, mas se pedimos café con leche servem-nos um café, deitando depois sobre ele o leite aquecido, à vista do cliente, e não directamente do pacote de plástico. Infelizmente muitas vezes também é aquecido com o tal esguicho estúpido de vapor de água.
Eis a diferença entre o serviço correcto e profissional e uma espécie de serviço mesquinho e ilusório, do género tradicional daquilo que diz "para quem é bacalhau basta".
3. É aqui que entre o carioca de limão.
Nunca soube por que se chamava carioca ao tal "café feito com maior quantidade de água fervente" (reza o Dicionário da Academia das Ciências), mas cá na minha filosofia reflexiva creio ter descoberto a razão: será porque o café no Brasil, aliás como cá, era servido também em cafeteiras e era mais leve, colocado na chávena como se fosse um copo de água. Se a explicação não é verdadeira, pelo menos é profunda. Já gora, recorde-se que carioca deriva de uma palavra tupi que significa casa do branco, e se aplica aos habitantes do Rio de Janeiro e não ao café que eles tomam
Depois veio o carioca de limão.
O carioca de limão é uma invenção tipicamente portuguesa, produzida, tal como a meia de leite não directa, pela imaginação comercial. Então é assim: toma-se um limão vulgar, que convém estar sempre à mão. Vai-se-lhe cortando uma pequenina casca que se coloca dentro de uma chávena vulgaris de café. Vai-se à tal máquina de vapor de água e sopra-se o mesmo para dentro da chávena, até encher. Acompanha-se com uma saqueta de açúcar e põe-se diante do cliente com ar de quem lhe está a servir a melhor das iguarias. Cobra-se como se fosse um café. Não é que os limões estejam baratos, mas um limão mediano dá bem uma dúzia de cariocas do mesmo. Com um pouco de imaginação, não se desperdice a casca: pode servir para outra vez. Nem a loja dos chineses imaginaria melhor.
4. Propomos pois uma especial condecoração ao inventor do carioca de limão, fundamentada solidamente num conjunto de razões "muito claras" (como as posições dos dirigentes políticos): obtém-se um produto rápido com um máximo de economia de meios; o produto cria a ilusão de bem estar e não tem nem cafeína nem nicotina: não cria habituação e pode até criar a ilusão que tem vitamina C; evita-se e saída de divisas, porque o limão ainda é um produto nacional (consta que vai ser certificado); o produto final tem uma óptima relação entre custo e benefício; ninguém se queixa de ser caro, e se se queixar tanto pior, porque está na tabela dos preços afixados ao fundo da loja e que nunca ninguém lê (porque não pode).
Se encontrarmos umas quantas soluções similares, resolvemos o défice em pouco tempo!
5. Coisa parecida se passa com o queijo tipo serra. Procura-se a imitação para encobrir a vulgaridade, o nome para disfarçar o produto. Mas destes há-os bons e maus. Os melhores são os bons.