Santa Maria do Marco de Canaveses
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D. Júlio Rebimbas, arcebispo-bispo do Porto, procedeu no domingo à dedicação da nova igreja de Santa Maria de Fornos, Marco de Canaveses, um templo que tem como arquitecto Álvaro Siza Vieira e que passa a servir a comunidade a que preside o P. Nuno Higino. |
Gente de muita proveniência acorreu ao Marco de Canaveses para a inauguração de uma igreja que era aguardada com grande expectativa, por ter sido concebida pelo arquitecto Siza Vieira e sua equipa (Rolando Torgo e Edite Rosa). Todos esses não ficaram defraudados, pois trata-se, de facto, de uma igreja diferente, de grande qualidade, e que certamente representará um virar de página no que diz respeito a este tipo de construções.
| A presença de três dezenas de padres e de conhecidas personalidades do meio político, musical e artístico, como Braga da Cruz, presidente da Comissão de Coordenação da Região Norte, Nunes Liberato que foi secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, de dois deputados e das autoridades autárquicas, do maestro Eugénio Amorim, organista Rosa Amorim e o agrupamento de metais Sollemnium Concentus, dos arquitectos Souto Moura, Miguel Carrapa, Solla Campos e do pintor José Maia, além de outros, revelaram a um povo que abraçara este projecto com inexcedível entusiasmo a importância da obra que ali se construiu. Esse contentamento era bem visível no rosto das pessoas que se apinharam à entrada do templo, aguardando que o Bispo recebesse a chave da igreja das mãos do Arquitecto e a entregasse ao Pároco para que abrisse a Porta, como aconteceu. | ![]() |
Quase um grito saído dos metais surgiu, então, do interior do templo completamente vazio. E todo o povo foi entrando a cantar: «Levantai, ó portas, os vossos umbrais! Alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da Glória!». Em seguida foi a aspersão do povo, das paredes e do Altar, e a liturgia da Palavra.
Na homilia, D. Júlio disse que este «é um dia a assinalar», depois de tantos trabalhos e canseiras. E acrescentou que «uma igreja que se constrói não é uma coisa que se faz» mas «tem uma interioridade, um valor de reunião de pessoas, de acolhimento, de intimidade e de relação interpessoal e com Deus». Saudou depois esta comunidade por ter sido capaz de ultrapassar todas as dificuldades e ter «criado» um projecto que tem em conta as directrizes conciliares: «Saúdo-vos e felicito-vos, porque esta geração soube responder aos apelos do presente e construir este sinal evidente da sua fé, esperança e caridade».
D. Júlio apontou depois algumas interpelações que uma obra destas lança à relação que as pessoas estabelecem com Deus, com a Igreja e com os outros. E apelou ao testemunho de autenticidade, fraternidade, solidariedade, justiça e paz que deve brotar das «pedras vivas» que são capazes de fazer igrejas novas, acrescentando: «Uma igreja nova é sempre o recomeçar de uma meditação interrompida e uma certuidão de autenticidade no meio das recusas impressionantes que nos envolvem. É um reforço de esperança, uma reconfirmação na fé, um meio de vencer notas negativas demasiadamente presentes».
O sr. Arcebispo fez apelo ainda à capacidade de escuta de Deus que «está sempre à procura do homem» como se não quisesse permanecer sozinho, a ponto de, como Job, poder exclamar, nas suas desgraças e tormentos: «Tu me caças como um leão!». E acrescentou que, em todas as suas fugas, «Deus permanece fiel ao homem» porque o ama «como só Deus pode amar, com a força e a ternura de um Pai ou de uma Mãe, movido por um amor infinito». E, porque «o problema do homem é fugir de Deus, esconder-se, procurar razões e desculpas», apontou a todos os caminhos da meditação, «da humildade, da fé,... da comunhão e da responsabilidade, do amor e da esperança».
Não deixou de lembrar os emigrantes
e os que já morreram, os doentes, velhos e crianças,
os jovens e as famílias a quem esta igreja há-de
servir no «sentido de linha sobrenatural que sempre deve
prevalecer e ser respeitado», dizendo que a igreja nova deve
ser «sinal e factor de vida nova para a comunidade cristã».
E exclamou: «Grande dia hoje, para o Pároco, o
Arquitecto e para todo o povo de Santa Maria do Marco. Guardai-o
nas vossas recordações mais importantes e transmiti
a sua memória às gerações futuras
que vos sucederem».
A festa dos sinos
No fim da celebração, tocaram, em tom de festa, os 14 sinos seguindo-se um almoço para que foram convidados todos os que ali se encontravam, num gesto mais ou menos inédito mas muito expressivo. Uma breve sessão solene que se realizou de seguida permitiu ao Pároco agradecer ao povo que desde há sete anos «constrói» esta igreja, à Santa Casa da Misericórdia, Câmara Municipal e Fundação Belmiro de Azevedo, bem como à Comissão de Coordenação da Região Norte, a quem pediu um reforço da comparticipação «uma vez que se trata de uma obra de qualidade excepcional». Salientando que esta é «uma igreja diferente, misteriosa» e que a paróquia está endividada em mais de cem mil contos mas está feliz, o P. Nuno acrescentou que a paróquia cumprirá os seus compromissos com os construtores e vai continuar a percorrer «os caminhos da transparência e da verdade».
Braga da Cruz enalteceu este «lugar de encontro da pessoa com o sagrado e de apelo à reflexão», sublinhando a sua dignidade e qualidade, «o que contribui para o nosso próprio equilíbrio».Disse que «Siza Vieira fez uma obra com inteligência, sobriedade, respeito pelos outros» e deu os parabéns ao Marco, explicando que são objectivos da instituição a que preside «que se faça bem» e que os 74 mil contos que foram dados foi o possível, em razão das solicitações e necessidades a que é preciso responder «com qualidade», como ali aconteceu.
Os presidentes da Junta e da Assembleia
Municipal manifestaram admiração e alegria por uma
obra que engrandece essa terra e foi capaz de unir muitas pessoas.
O presidente da Câmara, Ferreira Torres, louvou a obra e
quantos nela se empenharam, e lamentou a falta de verdade de algumas
notícias e a má intenção de quantos
nada fazem e tudo criticam. E, com optimismo, acrescentou: «Vamos
concluir a obra que aqui começou». E, pedindo
unidade à volta desta realização, ali exibiu
a sua oferta de mil contos.
Verdadeira criação
Siza Vieira, em depoimento dado à «VP», manifestou a sua alegria por ter trabalhado nestaobra, tendo salientado a importância da reflexão feita no tempo da elaboração do Projecto e a liberdade e exigência de qualidade que lhe foi posta. E acrescentou que só assim pode fazer-se «verdadeira obra de arquitectura», pois não houve caprichos nem imposições mas sempre claras tentativas de conseguir o melhor, o que lhe deu «uma enorme satisfação».
Salientou ainda que «trabalhou com muito pouco dinheiro» e que esta igreja «é barata», atendendo à qualidade dos materiais. E acrescentou que, ainda que não lhe tenham sido postos limites, entende que uma igreja «não deve ser cara» mas deve ser feita com materiais bons e ser bem construída.
Sublinhou que este foi um trabalho muito interessante também porque o pároco «colaborou na construção mental e espiritualmente» e que esse contributo é muito importante para um arquitecto. E, em contraste, apontou o que se passa em muitas obras públicas em que é preciso pedir «de joelhos» para fazer uma coisa coerente.
Siza explicou também que este foi «um programa novo» na sua vida, embora já tivesse projectado uma igreja para os lados de Évora mas que nunca se construiu. E que este fora um estímulo muito interessante e um óptimo ambiente de trabalho, de diálogo e participação.
O sentido do espaço, a pesquisa de formas novas para corresponder às novas exigências litúrgicas e, o que foi mais interessante trabalhar, foi o tema da luz: muita ou pouca luz, onde fazer incidir a luz.«Eu queria fazer uma igreja despojada, sem grandes decorações... a decoração da igreja é a luz». A mudança de ambiente com a mudança da luz, «por exemplo ao fim da tarde é o momento em que eu gosto mais desta igreja, quando a luz é mais quente». E uma grande porta, porquê?- foi a pergunta. E a resposta bem esclarecedora: «O espaço da igreja é um espaço para uma comunidade, um espaço de porta aberta, de grande porta, é uma igreja da abertura e da tolerância. O efeito da porta, também é muito importante, ... não posso esquecer um santuário que visitei em Palermo,ainda antes de pensar nesta igreja. Havia uma grande porta e ao fundo uma maravilhosa imagem de Cristo Pantocrator, em mosaico. Quando vim aqui foi uma das primeiras ideias que me veio à mente».
No Marco de Canaveses, uma igreja despojada abraça o mundo e estende a mão a todo o homem para que se encontre com Cristo, criador e redento.
| F.M. |
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