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SEM FRONTEIRAS

As migrações continuam a interrogar a Igreja

A Casa de Vilar acolheu de 7 a 10 do corrente o encontro anual dos Secretários diocesanos das Migrações sob a presidência de D. Manuel Martins, Bispo de Setúbal e presidente da Comissão Episcopal das Migrações e Turismo. Cerca de 35 participantes vindos das dioceses de Viana, Braga, Vila Real, Lamego, Viseu, Coimbra, Aveiro, Guarda, Santarém, Lisboa, Évora e Faro, debruçaram-se sobre as questões candentes das migrações deixando-se, uma vez mais, interpelar pela sua gravidade.

Os diversos tempos do encontro foram na generalidade marcados, de um modo ou de outro, por uma certa gravidade contida numa interrogação deixada por um assistente social da Cáritas espanhola: «Concretamente, o que pensa fazer a Igreja face aos problemas dos emigrantes?» Na saudação que dirigiu no início dos trabalhos, D. Manuel Martins havia já dado o tom lembrando que «as migrações continuam e engrossam, interrogando-nos sobre a qualidade da atenção que lhes damos». E continuou D. Manuel, afirmando que o comportamento dos cristãos é marcado pelo desinteresse já que «não nos incomodamos com os problemas dos pobres, porque não queremos ser incomodados, nem queremos incomodar os responsáveis». D. José Augusto Pedreira, numa rápida passagem pelo encontro, depois de ter saudado os participantes, viria a confirmar essa mesma impressão ao dizer que «a pastoral ordinária nem sempre está atenta aos problemas dos migrantes que gravitam à nossa volta».

O respeito pelas raízes

A diversidade dos termos abordados - população de etnia cigana, emigrantes sazonais e temporários para o estrangeiro, migrações do interior para o litoral de Portugal - em vez de dispersar a atenção dos participantes, antes permitiu uma tomada de consciência colectiva da unidade destas questões. Com efeito, depressa se chegou à conclusão de que quando o homem deslocado está ameaçado, só o respeito pelo que ele é e pelas raízes que são as suas, é que pode abrir o caminho de uma acção pastoral credível e reveladora de um Deus que é Pai de todos os homens, dotados da mesma dignidade.
Quer se trate de ciganos marginalizados e ameaçados por polémicas em Vila Verde e Cabanelas, quer falemos de sazonais transmontanos nas vinhas e nos campos em Espanha ou em França ou dos originários da Régua ou do Marco amontoados na periferia de Aldoar, todos vivem em comum o desenraizamento, a angústia do desconhecido, o confronto com a hostilidade e a recusa de quem devia acolher e não acolhe, de quem devia compreender e não compreende que todos estamos marcados por uma mesma história de migração, esquecendo que todos... fomos estrangeiros em terra estrangeira!

Os sazonais e os temporários

Concretamente, no que se refere aos sazonais e aos temporários portugueses que cotinuam a demandar terras estranhas de França, Espanha, Suíça, Alemanha... ficou bem claro que estes novos candidatos à mobilidade temporária estão a tornar-se vítimas do arbitrário de recrutadores sem escrúpulos e de patrões mais ou menos exploradores desta mão-de-obra barata e sem defesa. As condições de vida, de trabalho e de alojamento não são sempre as mais recomendáveis e aceitáveis. Os participantes constataram também a ausência não só da Igreja de origem, mas também a total ausência e desinteresse do Estado e dos organismos oficiais responsáveis.
Diante deste quadro preocupante, os secretários diocesanos propuseram um levantamento quanto possível aproximado desta realidade, a partir das paróquias e dioceses em que este fenómeno é mais frequente. Insistiram também na necessidade de uma informação larga e concreta para sensibilizarem a Igreja (todos os cristãos) e a sociedade através dos diversos meios de comunicação social (totalmente ausentes deste encontro, com excepção da «VP»).

Uma coordenação nacional para a pastoral dos sazonais e temporários

E no sentido de melhor assumirem estas diversas orientações e de favorecerem o diálogo com as Igrejas de acolhimento, os participantes decidiram constituir uma equipa nacional coordenadora para o acompanhamento pastoral dos sazonais e temporários. O secretariado diocesano das migrações de Viseu assumiu desde já a responsabilidade desta equipa que integra elementos dos secretariados de Vila Real, Lamego, Coimbra e Guarda.
Facilitar o diálogo com as equipas coordenadoras congéneres de França e de Espanha, existentes há muitos anos, para dar respostas adequadas aos problemas que se levantam é para já a missão da nova equipa coordenadora em total consonância com a Comissão Episcopal e a Obra Católica das Migrações.

Um diálogo construtivo

Insistiram muito os participantes portugueses e os convidados de Espanha e de França, na necessidade de um diálogo intenso entre Igrejas de acolhimento e Igrejas de origem. Uma ou outra intervenção denotava que certas feridas do passado ainda não estão totalmente curadas. O ambiente de serenidade permitiu, porém, que o diálogo existisse; que muitas incompreensões fossem superadas; que a originilidade de cada Igreja (de Portugal, de França, de Espanha) fosse reconhecida e respeitada. Ficámos com a impressão de que neste campo particular das migrações sazonais, as diferenças já não dividem, antes enriquecem. A interpelação mútua, com honestidade e humildade, conduz invariavelmente a um diálogo construtivo.

José Coutinho da Silva

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«É preciso ter a coragem de dizer aos jovens que alguns nunca encontrarão emprego»

- disse D. Manuel Martins, presidente do Secretariado Nacional das Migrações, no encontro dos secretariados das Migrações, reunido de 2ª a 6ª-feira, na Casa Diocesana de Vilar, Porto.

Os representantes diocesanos da Pastoral das Migrações estudaram ao longo três dias o fenómeno das migrações sazonais, dos ciganos e das migrações do interior para os grandes centros, situados no litoral do País. E logo saltaram alguns problemas que não têm tido o devido tratamento, seja por parte dos governos, seja da pastoral da Igreja: a exploração, de todo o género, de migrantes sazonais, a violência primária contra as populações ciganas, a «fuga» do interior para os arrabaldes das grandes cidades, tentando ganhar a vida, «seja como for».

Foram denunciadas atitudes de candidatos que prometem, se forem eleitos, «limpar» toda a zona de drogados, marginais e ciganos, a exploração servil de contratados a prazo, tantas vezes pelos próprios compatriotas, o trabalho precário e clandestino para conseguir «pagar a renda e matar a fome», a sobrevivência em degradantes condições de habitação conduzem ao vício e à marginalidade, o aliciamento de jovens para «vidas fáceis» que depressa redundam em novas formas de escravatura.
D. Manuel Martins, à maneira de conclusão do encontro, lembrou que «a Igreja deve estar cada vez mais atenta aos problemas das pessoas». E justificou-o com afirmações repetidamente feitas por João Paulo II de que «é missão primordial da Igreja proclamar a dignidade das pessoas, ajudá-las a descobrir a sua dignidade e denunciar com coragem as situações que agridem a dignidade das pessoas e violam os direitos fundamentais que aparecem descritos na Constituição». E, com palavras do Cardeal Ratzinger, lamentou que «a Igreja se ocupe demais a olhar para si e de menos a olhar para fora» e que, muitas vezes, o lugar dos mais infelizes e dos próprios ciganos «seja mais as seitas do que a Igreja».

Os ciganos são «pessoas»

Os padres Manuel Soares, António Matos e António Rui apresentaram, em momento conclusivo, alguns tópicos da reflexão feita pelos grupos. Assinalaram que tem mudado muito o tipo de migrações e que falta apoio, também por parte da Igreja, a uma gente que facilmente é explorada até por falta de informação. E manifestaram a decisão de avançar com um grupo que estude melhor as novas situações, informe as pessoas e alerte para eventuais perigos, e que «estabeleça pontes» entre os locais de origem e os de trabalho. Tentará ainda informar as autoridades, também as da Igreja, para as situações mais gritantes.

Fizeram depois apelo para que «a Igreja esteja mais atenta e abrace estes novos mundos», desenvolvendo as dimensões de acolhimento e de respeito pela diversidade de culturas, mas também a ousadia de ir ao encontro das gentes desenraizadas e mais predispostas para aderirem a alternativas fáceis como a droga, álcool e marginalidade, ou a aventuras de todo o tipo. E acrescentaram que devem ser denunciados, com verdade e firmeza, os problemas da desertificação de algumas zonas por falta de condições de vida e a concentração urbana geradora de outros problemas que devem interpelar a sociedade e a Igreja. O caso dos ciganos mereceu também cuidadosa análise, tendo concluído que importa clamar que fazem parte da sociedade, devem ser respeitados na sua cultura, merecem especiais cuidados para que se escolarizem e por parte da Igreja para que sejam evangelizados. Eles merecem também uma pronta e firme actuação da Justiça em relação a eventuais infractores, até para que não estejam sempre sob suspeita.

Os secretariados insistiram que deve haver um redobrado esforço por parte das comunidades cristãs para que criem condições para uma boa convivência e que, «de gente fora da Lei, se tornem povo protegido pela Lei». O encontro foi considerado muito positivo pela oportuna temática e pela qualidade das intervenções ali feitas para o que contribuiram as intervenções do P. Yves Constantin, coordenador da pastoral junto dos sazonais e trabalhador agrícola, Nere Zaldivar, assistente social da Cáritas, em Logroño, e responsável pelo acompanhamento dos portugueses sazonais da região de Rioja, José Coutinho da Silva, adjunto do Director nacional da Pastoral das Migrações em França (e colaborador da «VP»), José Leitão, Alto Comissário para as Minorias Étnicas, Pedro Vasconcelos, Governador Civil de Braga, Fernanda Reis acompanhada do cigano José Adelino, da Pastoral dos Ciganos em Lisboa, Maria Engrácia Leandro, socióloga da Universidade do Minho, dos padres Lino Maia, pároco de Aldoar, e Fernando Milheiro, da diocese do Porto, bem como do Rui Pedro, pároco da Amora e secretário das Migrações de Setúbal.

Em considerações finais foi sublinhado que um tempo novo poderá surgir na pastoral dos migrantes, mas isso depende também da organização dos respectivos secretariados em cada uma das dioceses, o que está longe de acontecer.
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