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As ruínas de Sarajevo, as tensões e os contrastes que persistem na ex-Jugoslávia e o caos albanês não autorizam quaisquer retóricas. Belas palavras de um idealismo utópico seriam despropositadas. E contudo é imperioso relançar a esperança, exortar à reconciliação e à paz, restabelecer elos dilacerados, tecer convergências, lançar pontes.
Não será isso mesmo anunciar hoje - neste fim de século, no momento de todos os desencantos e do ressurgir de tantas velhas tentações - o mistério pascal, a vitória da Vida sobre a morte, uma esperança que não engane? Num evidente final de carreira, esgotadas quase todas as suas forças físicas, o Papa Wojtyla continua a dar provas de clarividência, determinação e coragem.
As mais importantes intervenções de
João Paulo II continuam a assumir um vigor, uma validade
e uma plurivalência notáveis. Há nelas um
anúncio que é profundamente espiritual, religioso
e cristão, mas que inclui ao mesmo tempo uma dimensão
eminentemente «política», no sentido de apontar
concretamente os elementos de corrosão e desintegração
da sociedade (e da comunidade internacional) e os caminhos indispensáveis
para a reconstruir em bases sólidas.
O espanto de Zefirelli
As esclarecidas e persistentes tomadas de posição do actual Pontífice sobre a Europa são um dos casos concretos desta sua intervenção «histórica», de vistas largas, que poderá ficar para o futuro como um abrir-caminho, reconstruindo sobre os destroços das guerras e ideologias que fizeram e desfizeram este Velho Continente.
Diga-se de passagem que é neste contexto que se situa, para este Papa, a questão ecuménica, nomeadamente nas relações das Igrejas cristãs de tradição latina com as Igrejas ortodoxas de tradição eslava e bizantina. Em Sarajevo, como também em Praga ou na Polónia, João Paulo II não deixará de estender a mão aos Patriarcas das «Igrejas Irmãs» de Moscovo ou de Belgrado, de Atenas ou de Constantinopla/Istambul.
Como o fará também daqui a poucas semanas em Beirut, no mosaico de uma velha cristandade cuja variedade de ritos, tradições e obediências, sendo embora uma riqueza e um património a conservar, exige renovadas formas de comunicação e comunhão, num diálogo e prática ecuménicas especialmente difíceis.
Nas recentes celebrações dos Tratados de Roma (dando origem, há 40 anos, ao núcleo inicial da Comunidade Europeia) a RAI e a Telepace (canal televisivo católico italiano) produziram um programa em que João Paulo II - o Papa da Europa - foi também protagonista. Numa ligação directa entre a sede europeia de Bruxelas e as salas do Capitólio onde em 1957 teve lugar a assinatura do referido documento-fundador da «Europa unida», comentaram o acontecimento variados convidados como Gil-Robles, presidente do Parlamento Europeu, e o cardeal arcebispo de Praga, Miloslav Vlk.
Um dos momentos culminantes do serão foi a transmissão de um documentário preparado pelo realizador italiano Franco Zefirelli sobre as deslocações e intervenções «europeias» de João Paulo II. A abundância e qualidade do material que lhe foi fornecido para a preparação daquele filme surpreendeu profundamente Zefirelli, que se manifestou impressionado acima de tudo pela «força natural» do homem Karol Woytjla: «um autêntico Pedro, sem sofisticações»; um homem muito homem, que caminha na montanha, sobe e desce, fala e «scherza», viaja e intervém. «Uma criatura robusta, de tipo camponês, que Deus nos deu num momento em que havia precisamente necessidade de acção», de alguém assim...
| Pacheco Gonçalves |
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Numa das manifestações contra a Lei
Debré, surpreendeu a presença visível de
Portugueses. Tardia e provavelmente isolada foi esta aparição
uma ocasião para que militantes associativos portugueses
dissessem que afinal ainda são da família da imigração.
Entre sonho e feiras de vaidades
Habitualmente calados, desinteressados pelo que acontece e neste país, arredados de todos os momentos de solidariedade que tecem amizade e dignidade entre povos, alguns Portugueses lembraram-se da história de ilegalidade, de sofrimento, de exploração que foi a deles nos anos das grandes migrações do Portugal de Salazar para a Europa do trabalho e do futuro sonhado!
Voltados para o eterno e mítico regresso a
Portugal, os Imigrantes portugueses de França viveram,
anos a fio, agarrados a reivindicações que apenas
se destinavam aos sucessivos governos portugueses. Face a muros
de desinteresse e embalados por iniciativas lisboetas sem grande
conteúdo - Conselhos disto e daquilo, Congressos de gente
de sucesso e outras feiras de vaidades - alguns dirigentes associativos
decidiram-se pela intervenção na sociedade francesa.
A eles - e com eles - juntaram-se muitos jovens das novas gerações.
A procissão ainda vai no adro, mas pode ser que venha a
ter pernas para andar.
Cidadãos de segunda ou de terceira...
O estado de apatia generalizada, que alguns consideram
como sinal de integração nesta sociedade, é
sobretudo a prova de que a grande maioria não passa, afinal
de contas, de cidadãos de segunda ou até de terceira.
Revelador dessa inconsciência (que nem pode ser culpabilizada...)
é a reacção de um telespectador da RTP Internacional
que, via telefone, se insurgiu há dias contra a intervenção
de D. Manuel Martins, no programa «Na ponta da língua».
Dizia D. Manuel que os Portugueses no estrangeiro continuavam
subalternizados como «cidadãos de segunda ou até
de terceira». Dava a entender, para bom entendedor, que as
sociedades de acolhimento assim os consideram. O telespectador,
residente na Suiça, não concordou dizendo-se cidadão
de primeira naquele país!...
A vã glória de ser Europeu
Depois da adesão de Portugal à Comunidade europeia, os Portugueses de França também foram inundados de discursos alambicados sobre a glória de serem europeus. Que já não eram imigrantes nem coisa que com isso se parecesse. Vinte ou trinta anos de trabalhos forçados na Europa eram, assim, variados da memórias do milhão e tantos de Portugueses da Europa.
A Lei Debré aparece agora a lembrar que os residentes privilegiados (titulares de Bilhete de Identidade de Imigrante válido por dez anos) podem ver os seus direitos postos em causa se o Governador Civil considerar que o Imigrante é «uma ameaça para a ordem pública»! De Europeus (provavelmente de primeira...) voltam os Portugueses à realidade que sempre deveria ter sido a deles: serem orgulhosamente Imigrantes num país obcecado pela ameaça do estrangeiro e esquecido de que doze milhões de Franceses ou são imigrantes naturalizados, ou filhos ou netos de imigrantes (dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos, em Fevereiro deste ano).
É claro que, na sua recente viagem oficial a França, o Primeiro Ministro Português recebeu garantias e promessas de que os «bons» Portugueses não estavam na mira da nova lei!
Uma vez mais se divide a Imigração.
Aguardemos, entretanto, a aplicação concreta e diária
nos serviços de estrangeiros de uma lei onde não
há excepções...
| J. Coutinho da Silva |
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