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Dá impressão que complexificámos a vida de tal maneira que não conseguimos encontrar a ponta do fio da teia que tecemos e que cada vez nos enrolamos mais no mesmo com capa de novo. Sabemos que as grandes promessas dos mercados, do poder, do conforto são falsas mas caímos nelas com uma ingenuidade repetida e sem emenda. Só quando na viagem se atravessa um monstro, um fantasma, uma barreira aparentemente inultrapassável, uma fatalidade que nos reduz a um momentâneo vazio, paramos, escutamos e vemos que a travessia da vida pode ter outro rumo, as nossas energias outro destino e a nossa esperança outro alvo.
A Quaresma pode ser uma espécie de requiem por este pedaço de nós que deve morrer de morte assumida para ganhar outra dimensão e renascer na alegria. Ou seja: não precisamos experimentar a guerra para desejarmos a paz nem é urgente que um acontecimento trágico nos faça reconsiderar a formulação do nosso itinerário. Um pouco de cinza sobre a nossa cabeça é um sinal apenas de quanto estamos dispostos a lançar no lixo como inútil e prejudicial.
Grave é adiar, a pretexto seja do que for, esta operação preventiva, este rastreio às inutilidades acumuladas pelas nossas falácias. E nem vale a pena pensar que deste exercício precisam os políticos, empresários ricos, ou senhores das nações. O mais simples dos mortais, o mais virtuoso dos cristãos precisa tactear as próprias cinzas. Na espiritualidade cristã chama-se a isto a «morte do homem velho».
Se for requiem por uma parte de nós, vai dar ao mesmo.
| António Rego |
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