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Francesco Rutelli, o presidente da Câmara de Roma, e os respectivos vereadores, receberam das mãos do próprio Papa aquele exemplar do evangelho de São Marcos que irá ser entregue a todas as famílias romanas ao longo desta Quaresma. Aproveitando a audiência concedida no passado dia 31 de Janeiro (como habitualmente no princípio do ano) às autoridades municipais, colocou-se assim, antecipadamente, sob os focos dos meios de comunicação, uma iniciativa que faz parte da "Missão citadina" empreendida na sequência da recente conclusão do sínodo diocesano e enquadrada na preparação espiritual para a celebração do Jubileu do Ano 2000.
Foram já distribuídos pelas 300 paróquias da diocese de Roma um milhão de exemplares desta edição especial do Evangelho segundo São Marcos. Serão de facto as paróquias a organizar a entrega, casa a casa, dos Evangelhos. Envolvidos na iniciativa uns 12 mil "missionários", na maioria leigos empenhados na actividade pastoral (boa a percentagem de jovens, acompanhados de adultos e idosos), mas também religiosas. As pessoas escolhidos frequentaram encontros de preparação oração, catequese e formação prática propositadamente organizados nas 27 vigararias em que está dividida a Cidade/Diocese.
Constituíram-se pequenos grupos de duas ou três que irão, de porta em porta, tentando aproveitar a entrega do Evangelho para deixar uma palavra de anúncio cristão ou para entabular mesmo uma breve conversação sobre a vida de cada um, as aspirações e questões espirituais, as razões de um eventual afastamento da Igreja. Numa cidade profundamente afectada pelo secularismo e por um difuso ecletismo religioso (graças à acção das seitas e à atracção das religiões orientais), pretende-se dar maior visibilidade e dinamismo à presença dos cristãos católicos no ambiente em que vivem e actuam.
Marcos, Evangelho "romano"
A escolha de S. Marcos não aconteceu por acaso. Além de ser o texto-base do ano em curso, apresenta-se como um evangelho escrito em Roma por aquele que era discípulo e intérprete do Apóstolo Pedro. sem ser luxuosa, o pequeno volume de 46 páginas tem boa apresentação, reproduzindo a cores, na capa, o belo Cristo, do séc. XII, do mosaico de abside da basílica romana de São Clemente, como que a recordar os 2000 anos de história cristã da Cidade Eterna.
Entretanto, as três anos da celebração do grande jubileu do ano 2000, que deverá trazer a Roma dezenas de milhões de peregrinos (para além do já importante volume turístico), intensificam-se algumas obras mais urgentes para permitir o acolhimento de tão elevado número de visitantes, sem que isso se torne um pesadelo insuportável para a vida corrente dos romanos. No seu encontro com o Papa, Rutelli assegurou que tudo se fará para que as obras em curso se realizem em condições de transparência, para que este acontecimento não venha a entrar na série de casos de corrupção que em Itália (e não só) costumam assinalar os períodos de grandes verbas destinados a investimentos públicos.
Pela sua vez, João Paulo II fez votos de que tudo possa decorrer no pleno respeito das finalidades religiosas do acontecimento jubilar".
De entre a obras públicas projectadas para Roma, em ligação com o ano 2000, há duas que a Igreja de Roma e sobretudo o Vaticano vem com especial apreço: um túnel rodoviário a realizar junto do Castel Sant' Ângelo, canalizando o intenso tráfico da margem directa do Tibre, nas proximidades de São Pedro, permitindo assim a criação de uma extensa zona de peões incluindo a Via della Conciliazione; um grande parque de estacionamento, subterrâneo, com diversos pisos, sob a colina do Janiculo, a dois passos de são Pedro, em terrenos que são propriedade do Vaticano. Apesar de resistências e dificuldades de diverso tipo é natural que os dois projectos se venham a concretizar. Mas, não estando ainda definitivamente aprovados os projectos nem fixadas as datas para o início dos trabalhos, pouca gente acredita que os peregrinos do anos 2000 delas possam beneficiar. A ver vamos.
| Pacheco Gonçalves |
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Frente ao mistério do ser, confrontados com a substância mesma da sociedade humana, só uma atitude acho possível: a de Moisés perante a sarça ardente: temos de aproximar-nos tirando as sandálias. É, com efeito, sagrado o terreno que pisamos. Trata-se dum problema tremendo e só trementes o podemos abordar. As perguntas são inúmeras e terríveis, e as respostas exíguas e insuficientes. Os únicos sentimentos consentâneos neste contexto são de insegurança, de modéstia, de dúvida, de trágica responsabilidade.
Pasmo, portanto, ao ver por aí certa gente que, como quem bebe um copo de água, sem ponta de escrúpulo, sem a mais leve hesitação, adianta soluções todas prontas, factos consumados, e mais isto e mais aquilo, e que a mulher deve poder dispor do próprio corpo e que esta já abortou, etc. etc.
Sem pretender, de momento, falar de como me situo perante o problema, apenas direi, de passagem e como católico, que, no plano moral, me identifico com a doutrina da Igreja; e mais: que, embora questionando certas posições oficiais da Hierarquia em matérias com esta conexas, designadamente no âmbito da sexualidade, estou convicto de que, neste caso, a Igreja presta um inestimável serviço ao mundo, porquanto representa, com a sua inabalável firmeza, o mais importante reduto na defesa do mais sagrado os valores: a pessoa humana.
Note-se que falei em plano moral. Era aqui que de facto eu queria chegar para fazer uma distinção necessária, sem a qual a confusão se instala.
É evidente que, no plano moral e religioso, os princípios e os valores não são referenciáveis para aqueles que acreditam neles. Não pode o homem manipular o que de fonte divina recebeu. Simplesmente uma sociedade democrática inclui, por definição, morais e valores diferentes. Eu não posso impedir que o meu vizinho tenha princípios morais outros que os meus. E para vivermos juntos temos que estabelecer plataformas de entendimento, definir normas, criar leis.
Podemos inclusivamente entender que certas matérias não são referendáveis, deixá-las em vazio legal e remetê-las para a consciência individual de cada um. Mas nesse caso também não são legisláveis. Porque, desde que decidamos legislar sobre elas, de duas uma: ou elaboramos as leis tendo em conta a opinião dos destinatários ou sem qualquer consideração por eles. Estou certo de que ninguém se atreverá a defender a primeira hipótese. Parece indiscutível que as normas instituídas devem, na medida do possível, traduzir o sentir dos cidadãos, ser uma espécie de emanação da opinião pública predominante. Mas para tal essa opinião deverá ser conhecida, deverá poder manifestar-se. Em conclusão: o que é legislável, também é referendável; e quanto às leis, ou não se fazem ou então devem ajustar-se o mais possível à sensibilidade dos sujeitos a que se destinam.
Em boa lógica, portanto, não é possível descortinar razões para condenar o referendo sobre o aborto. Se o aborto não é referendável, então não tem sentido a existência de qualquer lei sobre o mesmo e os defensores daquela tese, em vez de pretenderem alterar a lei existente, deveriam, para serem lógicos, reclamar a sua abolição.
Por isso, apesar de católico, discordo das declarações de alguns bispos contra o referendo. E digo de alguns bispos, porque, ao que sei, a Igreja como tal não se pronunciou sobre a questão. É óbvio que eventuais leis contrárias aos valores cristãos nunca poderão servir de pretexto para um cristão os postergar. O mesmo sucede, aliás, noutras matérias como, por exemplo, quanto ao divórcio e à indissolubilidade do matrimónio. Mas, numa sociedade pluralista, por mais sacrossantos que sejam os meus valores e por mais abomináveis que sejam os dos outros, temos de conviver em aceitação recíproca.
Aduzir esses valores contra o referendo não é, portanto, legítimo. Mas quem os invoca poderá merecer-nos, por isso, alguma compreensão. Que dizer, porém, daqueles que nem valores têm para invocar? Daqueles que reclamam fazer leis em nome de nada, ou melhor, apenas em nome do seu despotismo? Que dizer dos comunistas, da Juventude Socialista e tutti quanti? E vêm-me inevitavelmente à memória as célebres declarações de Álvaro Cunhal à jornalista Oriana Falacci, pouco depois do 25 de Abril: «Não haverá regime parlamentar, porque nós não queremos»! Ah grandes democtratas, ah amplas liberdades, ah grandes promotores do diálogo!
| Flávio Vara, Lisboa |
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