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Gouveia
Mais de metade dos participantes eram leigos empenhados no acolhimento e protecção social e no acompanhamento pastoral dos «novos» emigrantes que atravessam a Europa ao sabor dos trabalhos agrícolas ou da urgência dos grandes estaleiros de construção civil.
Gente de experiência no terreno, os participantes
partilharam vivências do seu dia-a-dia reveladoras do verdadeiro
rosto das estruturas de emprego hoje em plena voga na Europa
comunitária: a sub-empreitada internacional que permite,
por exemplo, que trabalhadores portugueses sejam pagos, nas obras
em Berlim, cerca de seis vezes menos que os trabalhadores alemães
realizando as mesmas tarefas. Situações semelhantes,
quanto a condições de trabalho e de salário,
vivem Albaneses na Itália na apanha do tomate, ou Portugueses
e Marroquinos na Rioja espanhola na apanha do espargo ou da batata
ou nas vindimas em França.
A ausência de Portugal
Porque são muitos - disse-se «são cada vez mais» - os Portugueses a partir nestas condições, causou estranheza o número significativamente reduzido de participantes de Portugal.
A livre circulação das pessoas - e o que ela representa no imaginário português se considerarmos o passado obscuro anterior ao 25 de Abril de 1974 - não pode de modo nenhum disfarçar as condições humilhantes desta nova emigração. Não são só cidadãos da União Europeia que vão passear para França, Espanha ou Alemanha. Na maior parte dos casos são apenas braços que serão mais maltratados do que os emigrantes dos anos setenta!
Lavar as mãos diante desta nova sangria que alguns teimam em considerar turística, é desonesto e irresponsável. O facto de voltarem com dinheiro, «pão que o diabo amassou», será uma razão suficiente para serem castigados com a indiferença de governantes e até de pastores?
A saída para o estrangeiro não é
uma fatalidade, como não o são as causas que levam
esses homens e mulheres, jovens na quase totalidade dos casos,
a procurarem no estrangeiro o que não têm na sua
terra. Também não é uma fatalidade a aceitação
resignada por Portugal de acordos da UE que não protegem
os trabalhadores deslocados para obras no estrangeiro. E a ignorância
pela opinião pública - incluindo a opinião
pública cristã - das condições de
chamada, de emprego e de vida destes novos emigrantes também
não pode ser uma fatalidade.
Deficiente preocupação das Igrejas
Reconhecendo, no comunicado final, que as diversas Igrejas vão respondendo a estas diferentes situações, os participantes constataram «uma certa carência nas preocupações das Igrejas, tanto das de origem como das de acolhimento».
Antecipando-se a este comunicado final, D. António dos Santos, bispo da Guarda, que visitou rapidamente alguns dos grupos de trabalho, afirmou que «a Igreja de Portugal não tomou consciência da gravidade do problema dos emigrantes actuais (sazonais e temporários) como tinha tomado a quando da primeira vaga (anos 60-70)». E acrescentou: Pelo que ouvi aqui, há problemas muito sérios. Não tenho feito o necessário para avaliar essas questões. É provável que não estejamos suficientemente informados. E pergunto-me como é que nós, bispos, utilizamos as nossas idas esporádicas ao estrangeiro para tomarmos consciência dessas situações. E também como é que nos nossos jornais, na nossa pregação, na pastoral estrita, tudo fazemos para provocar respostas da Igreja e do Estado».
O esforço de reflexão, de tomada de consciência e de presença efectiva junto destes novos emigrantes dos sectores das migrações de algumas Igrejas do espaço europeu, pretende ser um apelo dirigido aos cristãos para que se oponham às causas e às consequências desta nova «escravatura». Num apelo final às Igrejas da Europa, os delegados lembram-lhes que «reconsiderem a sua posição. É necessário que toda a Igreja... responda aos desafios que nos lança esta nova situação». E concluem, dirigindo-se aos presidentes das Conferências episcopais, pedindo que «em Igreja, levemos a sério a evangelização das pessoas que vivem esta realidade, pondo ao seu dispor projectos, agentes pastorais e os meios necessários».
| J. Coutinho da Silva |
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Uma grande parte da humanidade assinala os anos pondo como referência o nascimento de Cristo. Outros acontecimentos marcaram já o tempo, mas os cristãos conseguiram pôr como ponto central dos anos e dos dias o dado mais fundamental da sua Fé: Deus veio habitar entre os homens. Nascendo em Jesus Cristo, experimentou a sorte do pobre e suportou ultrages, perseguições e uma injusta condenação à morte. Mas Ele ressuscitou e a cada pessoa agora dá, pelo Espírito, o alento para que viva da força que vem de Deus.
A Igreja instituiu um tempo, é o Advento, para nos ajudar a acolher uma relevante perspectiva de que nasce uma esperança sem fim. Neste ano, ele lança-nos na preparação próxima para o Ano Jubilar, quando passam dois mil anos da Redenção de Cristo. Seja isso capaz de despertar pessoas e comunidades para a ousadia de pôr-se a caminho, olhar em frente e abraçar a alegria da salvação. Para isso, João Paulo II pediu uma preparação de três anos, vividos no esforço de dar as mãos a todos os que buscam a luz de Deus. Ela brilhe em diferentes tons para que todos possam ver a Luz. E a festa surgirá, semeando os dons de Deus pela banalidade, rotina e vazio de vidas sem sabor. Então, desemprego, medos, guerras, fome e injustiças, hão-de dar lugar a um dia, por Cristo e para todos, sempre novo.
Às pessoas compete descobrir formas que toda a gente entenda e que demonstrem que vivemos dois mil anos depois do Salvador. Exigente preparação tornará grande a festa. E daí resultará, depois de tantos séculos de divisões e contendas, um milénio de permanente novidade.
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