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Neste aspecto, e porventura em contraste com outros países europeus de tradição católica, a Itália revela uma impressionante vitalidade. Os sectores a citar seriam muitos: o ecumenismo, o diálogo cristão-hebraico e inter-religioso, o voluntariado local e internacional, organizações humanitárias, espaços culturais dos mais diversos, os meios de comunicação... Por todo o lado os católicos estão presentes, em inter-acção com os não-católicos, com os hebreus e com os chamados «laicos».
Esta variedade e riqueza da presença dos católicos no mundo cultural italiano estão bem patentes numa publicação que acaba de sair sobre «Os centros culturais católicos: ideia, experiência, missão». Correspondendo a um esforço de inventariado que durou três anos e envolveu a Comissão Episcopal para a Educação Católica, Cultura, Escola e Universidade e o Conselho Pontifício da Cultura, são assim ilustradas nada menos de 598 instituições católicas italianas, expressamente ligadas ao mundo da cultura, a começar pelos «Centros de Cultura Católica» existentes em bom número de dioceses: 54 Institutos Superiores de Ciências religiosas com aprovação pontifícia e outros 74 reconhecidos pela Conferência Episcopal; para além de 159 Escolas de formação sócio-política (na esteira das Escolas de Formação Política para leigos, iniciativa tomada há muito em Palermo pelos Jesuítas e em Milão pela arquidiocese).
Mas as realidades elencadas no referido Guia são bem mais diversificadas, e abrangem variados sectores, da investigação científica a bibliotecas, de centros de diálogo inter-religioso a cineclubes; ligados a paróquias ou dioceses ou geridas por católicos em grupo ou mesmo por iniciativa individual.
Por outro lado, um simples relance sobre as múltiplas
iniciativas da vida cultural italiana revela uma impressionante
quantidade de manifestações em que está especialmente
presente a dimensão religiosa ou cristã. Alguns
casos dos últimos dias, a título de exemplo.
Em que crê quem não crê?
O presidente do Parlamento italiano preside à apresentação de um livro publicado por uma Fundação ligada a uma área política «laica». Título da obra: «Em que é que crê quem não crê?». Entre os diferentes depoimentos, o do Cardeal Martini, arcebispo de Milão, em confronto com o escritor Umberto Eco.
«O mundo e o sobre-mundo dos ícones»: tema de um congresso internacional promovido em Veneza pela Fundação Giorgio Cini, congregando alguns dos mais especialistas no assunto. Em coincidência, abertura de uma Mostra sobre «A imagem do espírito». Ícones das terras russas».
Nesta mesma cidade que tem como presidente da Câmara um filósofo, decorreu estes dias um outro Congresso congregando pensadores e filósofos para reflectir «Que coisa é o tempo?» Presente, entre outros, Paul Ricoeur e um especialista do Presente, entre outros, Paul Ricoeur e um especialista do pensamento agostiniano, Virgílio Melchiore. Paralelamente, uma resenha cinematográfica sobre o mesmo tema e uma mostra fotográfica intitulada «Ver o tempo». Organizada por uma arqueologia, ilustra as variadas concepções do tempo no mundo greco-romano: desde Chronos que devora os próprios filhos, até ao Chairos com a balança para medir o tempo propício, passando pela figura de Aion, que indica a duração da vida e aponta o círculo de Zodíaco, com o eterno retorno...
Neste 4 de Novembro Veneza vai recordar os trágicos momentos vividos há 30 anos, quando a cidade dos canais ficou parcialmente submersa (bem para além do círculo fenómeno da água alta). Como celebrar oficialmente esta data? As autoridades decidem promover na basílica de São Marcos um concerto ilustrando as quatro tradições religiosas musicais mais difundidas na bacia do Mediterrâneo: católica, ortodoxa, islâmica e hebraica. Participam a Nova Schola Gregoriana de Verona, os Mestres do Canto Bizantino de Atenas, uma «Confraria» islâmica tunisina, um conjunto israelita, a Capela Ducale Venetia e o Coro do Teatro da Ópera «La Fenice».
Na Feira de Bolonha, no âmbito do Salão da Construção Civil, tem lugar um Colóquio sobre «Igrejas, cidades, comunidades», debatendo questões ligadas aos espaços litúrgicos e sua inserção no tecido urbano.
Em Roma, arquitectos dos mais renomados participam num outro Colóquio sobre «A arte e a Igreja do século XXI, espaço e liturgia». Num concurso organizado pela diocese de Roma para a projectação de novas igrejas para os bairros periféricos da cidade, o primeiro prémio foi atribuído a Richard Meier, hebreu americano. A igreja está em construção e será inaugurada no ano 2000.
Em Milão, às quartas-feiras à noite, uma das mais antigas igrejas da cidade, à vez, enche-se de público para a audição das Cantatas de João Sebastião Bach. Uma iniciativa que prevê a audição completa desta importante parte da produção de Bach. A organização assenta numa «Sociedade» criada para o efeito, e conta com o apoio da Câmara Municipal e de muitos patrocinadores. O último concerto contou com a orquestra e os solistas da «Kapelle» de Dresda, dirigidos por Peter Schreier...
| Pacheco Gonçalves |
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Muitos dos estados multinacionais são o resultado de determinadas conjunturas histórico-políticas e/ou de soluções artificiais impostas pelas potências dominantes de cada época. Ultrapassadas essas conjunturas, a artificialidade das soluções torna-se mais visível e assume, para muitos dos que por elas lutaram ou pelo menos as aceitaram, contornos de irracionalidade e injustiça a que procuram pôr fim. Os conflitos, que abalam hoje alguns estados, decorrem deste tipo de reacções.
Em 1960, por exemplo, nascia o Estado de Chipre, sob a bênção das Nações Unidas e com a aceitação mais ou menos resignada da Grã-Bretanha - potência ocupante - e da Grécia e da Turquia, países a que histórica e culturalmente estavam ligadas as suas comunidades nacionais daquela ilha mediterrânica. Apesar das tensões sempre visíveis entre cipriotas gregos e turcos, estes tenham um objectivo comum e por ele lutaram: a libertação do domínio inglês. A independência, com a criação de um Estado binacional, foi para ambas as partes o menor dos males, mas não apagou nem os velhos ódios da História nem o sonho de cada comunidade se unir à «sua pátria mãe», mesmo sem o vínculo de uma continuidade geográfica.
É certo que o novo Estado foi funcionando, mas nem a figura carismática do arcebispo Makarios - primeiro presidente e seu verdadeiro fundador - conseguiu evitar a eclosão de conflitos dramáticos entre as duas «nações». O que aconteceu em 1974, com a invasão do exército turco e a criação de um «estado» cipriota turco que, para além de Ankara, ninguém reconhece, é apenas a expressão extrema e radical de ódios históricos e irracionais, que, até hoje, não foi possível ultrapassar. As recentes explosões de violência, junto à linha de demarcação entre os dois «territórios», veio apenas confirmar como o passado está ainda presente, a condicionar os sentimentos das novas gerações.
A ilha de Chipre conhece pois uma situação de direito, que é uma autêntica ficção: corresponde oficialmente a um Estado que, sendo formalmente unitário, só abrange, na realidade, uma parte do território e dois terços da população: a cipriota grega. E conhece uma situação de facto que, publicamente, ninguém quer admitir e a que as autoridades de Nicósia e as potências internacionais não conseguem pôr fim: a existência de um «Estado nacional cipriota turco».
Por mim, não me atrevo a dizer que, em 1960, seria possível uma outra solução, mas penso ser legítimo afirmar que meter gregos e turcos no saco do mesmo Estado é saber pouco de História...
| António José da Silva |
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