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PONTOS DE VIDA

Antes que seja tarde...

Todos dos dias da semana na Antena 1, "Antes que seja tarde.." é um programa de rádio animado por Carlos Pinto Coelho, um espaço radiofónico onde se respira um ar social bacteriologicamente puro. Entendamo-nos: este ar puro tem a ver fundamentalmente com a visão positiva das coisas que o programa transmite e com a qualidade dos convidados e das intervenções que ali são feitas. Mesmo as críticas, que são justas quando objectiva e educadamente feitas, surgem com carátcer construtivo, longe do negativismo de alguns espaços existentes em certos órgãos de comunicação.

Tenho tido várias oportunidades de ouvir o programa e nunca me apercebi de uma palavra de menor apreço por este ou aquele, da aplicação de uma expressão soez, ou de vitupérios dirigidos seja a quem for, num claro e agradável contraste com o "cobras e lagartos", o programa de Joaquim Letria que teve morada naquele mesmo comprimento de onda, até cair em desgraça...

Carlos Pinto Coelho não precisa de apresentações. O excelente mini-programa cultural que dia após dia traz à RTP2 - "Acontece" - é um tempo delicioso que também merece a atenção dos espectadores, demonstrando a enorme capacidade de comunicar do seu autor e apresentador.

Com o programa de rádio que dirige na Antena 1, Carlos Pinto Coelho trouxe ao espectro radiofónico algo que faltava: uma visão positiva da vida e das realizações humanas, um olhar sereno sobre as actividades culturais, um meigo elogio do livro e da leitura, um saber dizer que dá gosto ouvir.

Além disso, Pinto Coelho soube descentralizar e todos os dias surgem convidados que entram no programa a partir de estúdios no Porto, em Coimbra, em Faro, o que dá ao "Antes que seja tarde" dimensão nacional e corrige a visão vesga de alguns programas que de Lisboa fazem o centro do (pequeno) mundo que é este rectângulo lusitano.

É, por outro lado, um espaço aonde também é preciso que os ouvintes levem o muito de bom e positivo que, anonimamente, por aí se faz com a juventude, com a solidariedade social, com a terceira idade, com as crianças. É preciso apregoar nas ondas da rádio o que é diferente - para melhor - neste mundo que dá a primeira página às cenas de violência e remete os outros pontos de vida para lugares menos visíveis, afastados da tona da actualidade. E é bom e saudável tomar consciência de que há muita gente a trabalhar bem e pelo bem, há muita vontade de mudar o que de mal existe. Urge dizer isto na comunicação social... "antes que seja tarde!"
B. Chamusca
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A CAUSA DAS COISAS

Um prémio e três histórias

A notícia da atribuição do Prémio Nobel da Paz deste ano encheu de entusiasmo o coração dos portugueses e criou um clima de euforia a respeito do futuro de Timor Leste. As razões de tanto entusismo não podem ser contestadas. O clima de euforia, esse, parece excessivo e justifica uma chamada de atenção.

É indiscutível o efeito mediático da escolha feita em Oslo: a partir de agora, mesmo aqueles que ignoravam realmente, ou fingiam ignorar, o problema de Timor Leste são confrontados com uma decisão de enorme alcance moral e político, que atira Timor Leste, pelo menos durante algum tempo, para espaços nobres do noticiário internacional. Sabendo, como sabemos, da importância, por vezes decisiva, que a comunicação tem no processo político, é perfeitamente razoável acreditar que o galardão atribuído a D. Ximenes Belo e a Ramos Horta dê à resistência Timorense e ao Governo Português uma capacidade de luta e de negociação impensável até há pouco. Cresceram, justificadamente, as razões de esperança. E, no entanto, será bom prevenir contra os excessos de euforia.

Não se pode negar que a atribuição do Nobel da Paz a personalidades envolvidas em movimentos de cariz político e social tem, quase sempre efeitos potenciadores para o seu empenhamento e para o êxito da sua luta, mas também há casos em que o nome dos premiados caiu no esquecimento e, pior ainda, o prémio não mudou, substâncialmente, as situações que eles pretendiam transformar. Ou então, o processo de mudança foi mais lento e difícil do que o sonhado com a festa do prémio.

Quem se lembra hoje de Betty Willliam e de Maired Carrigan, essas duas corajosas mulheres irlandesas que receberam o prémio em 1988? O que mudou realmente na Irlanda do Norte, depois disso? O que é que aconteceu a Suu Kyi, outra mulher forte, que recebeu o Nobel em 1988, como galardão e incentivo para a sua luta em prol da instauração de uma democracia autêntica no seu país, a Birmânia? Não lhe foi permitido deslocar-se a Oslo, ficou sujeita ao regime de liberdade vigiada e o seu sonho está longe de se concretizar.

Não se pode dizer, no entanto, e apesar disso, que tudo fica na mesma, mesmo quando parece que nada muda com a atribuição do Prémio. Este é sempre uma pedrada no charco, apesar de, em certos casos as ondas não se sentirem logo à superfície. Andrei Sakarov foi galardoado em 1975 e, só em 1989, a então União Soviética se abriu definitivamente para uma mudança radical. Esta não se deve unicamente ao grande cientista e escritor, mas quem poderá negar a importância decisiva que ele teve nessa mudança? E o que seria a acção de Sakarov, sem a salvaguarda do Prémio que lhe foi atribuído?

São três histórias que vale a pena recordar, para moderar a nossa euforia e fundamentar, racionalmente, a nossa esperança.

P.S. No último texto referente a Jerusalém, falámos dos acordos de Dayton, quando pretendíamos dizer acordos de Oslo.

Do equívoco pedimos desculpa.
António José da Silva
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