Forum:

"Massarelos em festa"

A Junta de Freguesia de Massarelos conseguiu manter "Massarelos em Festa" ao longo de três dias. No dia 20, houve animação na sede da Junta, com os arquitectos autores de cinco projectos e respectivas soluções para outros tantos problemas da freguesia, e com Técnicos de Gabinete de Planeamento Urbanístico, o Presidente da Junta e demais elementos do Executivo e muitos interessados, em debate que decorreu ao longo de mais de quatro horas.

No sábado, de manhã, com a presença do deputado da Assembleia da República, Dr. Pedro Baptista, dos vereadores municipais Orlando Gaspar e Armando Pimentel, dos elementos do executivo da Junta e de Dirigentes Associativos da Freguesia, ciceroneados por Júlio Couto, o autor da "Monografia de Massarelos", foi percorrida grande parte da freguesia, tendo sido apontados os locais de maior interesse turístico mas também "as chagas" a que urge pôr têrmo. Falou-se da necessidade de honrar o sábio Padre Himalaia, por exemplo dando o seu nome ao Beco de S. Macário. E também chamando "Praia dos Insurrectos" ao cais da Cábrea, já que este epíteto é motivo de muito orgulho para as gentes de Massarelos. O almoço que se seguiu redundou em franca camaradagem. À tarde e no Parque da Cidade, houve animado convívio desportivo inter-associativo e à noite, no parque de estacionamento do Campo Alegre, um arraial com o conjunto musical "Núcleo", de Sendim - Miranda do Douro.

Ao fim da manhã do dia 22, domingo, e na Igreja do Corpo Santo, houve Missa solene em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, a padroeira da freguesia.cantada em gregoriano por um grupo ligado à Igreja da Lapa e formado por antigos alunos do Seminário de Vilar. A designação de "Boa Viagem" foi apontada como herança de um passado mas também como apelativa a novo fervor em tempos de tanta mobilidade e perigos: os caminhos das viagens e última para outras paragens.

Toda esta actividade se concluiu, à tarde, com um festival de folclore em que participaram o Grupo dos Pauliteiros da Câmara Municipal de Miranda do Douro, o Rancho Folclórico do Porto, o Rancho de Santa Eufémia de Pé de Moura, Gondomar, e o Grupo Folclórico de Lordelo do Ouro, Porto.

Início


A CAUSA DAS COISAS

Vergonha das raízes?

Psicodrama foi o termo escolhido por Guy Cocq, colaborador da revista «Esprit», para traduzir o debate mediático e cultural que antecedeu a recente deslocação pastoral de João Paulo II a França. Raramente, a visita do Papa a um país europeu terá sido objecto de uma polémica tão apaixonada, quando afinal, parecia estar apenas em jogo a celebração de uma data festiva e marcante na história francesa: o baptismo, há mil e quinhentos anos, do rei Clóvis e com ele o começo do reino cristão dos francos. Por outras palavras, o princípio da história da França cristã. Só que a simples evocação de uma França cristã fez renascer em alguns meios culturais e políticos fantasmas e medos que se julgavam extintos. De tal modo que a grande vítima das comemorações acabou por ser próprio Clóvis, remetido por alguns historiadores, muito preocupados com a defesa da laicidade, para a categoria de simples chefe de clã, déspota e tirano, indigno assim de qualquer comemoração nacional.

Certamente que é discutível se a história da França remonta a Clóvis ou, cinco séculos mais tarde, a Vercingetoix, quando este reuniu, sob o seu comando, a quase totalidade dos chefes gauleses. Mas a discussão não moveria paixões, se não tivesse como condimentos a religião e a política; se não tivesse na sua génese um baptismo que ligou uma nação à história da Igreja.

Naturalmente que é hoje contestável o princípio do baptismo massivo de um povo na sequência do baptismo do seu rei. Como é seguro que uma tal conversão não se traduziu numa súbita transformação dos seus hábitos e costumes morais. Mas não foi isso que fez agitar as consciências francesas bem pensantes. O que verdadeiramente as preocupou foi a simples hipótese de uma tal documentação poder justificar o título de «filha primogénita da Igreja» que Roma gostava de usar, quando se referia à França. Aparentemente, há muitos franceses que não só dispensam mas rejeitam uma tal distinção, por verem nela caminho aberto para a ingerência papal na vida do país e dos seus cidadãos. E de nada valeram os esclarecimentos e as explicações da hierarquia da Igreja: comemorar o baptismo de Clóvis era para alguns ameaçar com o regresso do nacional catolicismo; era ameaçar a laicidade dos franceses e, pelos vistos, a sua própria liberdade!

É verdade que alguns grupos católicos mais ou menos fundamentalistas quiseram tirar dividendos da visita papal. O mesmo pretenderam fazer certos movimentos políticos da extrema direita. Só que, antes e durante a presença em França, João Paulo II não deixou dúvidas a respeito do objectivo e do sentido da sua deslocação: celebrar com os católicos franceses uma data marcante da história do seu país e da própria Igreja.

Que haja franceses sem qualquer ligação à Igreja e mesmo à Religião é perfeitamente admissível como opção individual e livre. Que muitos não gostem do magistério do Papa também não está em causa como direito pessoal. Que ponham em questão a sua própria memória colectiva já é mais difícil de entender. Que tenham vergonha das suas raízes cristãs, isso faz doer profundamente.
António José da Silva
Início


PONTOS DE VIDA

Fortaleza

Aproveitei as férias para visitar o Z., na sua casinha branca construida a meio de uma encosta soalheira, sobraneira ao Mesio. Há mutio tempo que não o via, sabendo embora do seu arrepiante calvário.

Já lá vão vários anos. O Z. e a esposa foram vítimas de um gravíssimo acidente de viação, causado por terceiro. Ela faleceu logo, ele passou longas semanas no hospital, de onde saiu paralisado das pernas devido a grave lesão na coluna.

Do hospital foi mandado para Alcoitão e percorreu o longo calvário da adaptação a uma vida nova e cheia de dificuldades. Dois filhos menores, em tempo de crescimento, eram a sua preocupação.

A cadeira de rodas passou a ser o seu "habitat". Mas nem isso fez esmorecer a sua vontade de viver. Um dia, num Porto-Benfica, dei com ele nas Antas, à beira do relvado, entusiasmado com os golos do Fernando Gomes. Os mais de cinquenta quilómetros de estrada não foram obstáculo.

O tempo e as chagas fizeram-no abandonar a profissão recurso aprendida logo depois da passagem por Alcoitão.

O hospital do concelho foi, então, a sua residência durante longos, longos meses.

Mas nada disto foi suficiente para abalar o sorriso permanente que lhe ilumina o rosto. Um homem não vale só pelas pernas; por isso, o Z. concorreu às eleições autárquicas locais e ei-lo eleito secretário da Assembleia de Freguesia. O clube de futebol local, dedicado à formação dos jovens, precisava de um dirigente e o Z. não se fez rogado. Agora já está neste serviço acompanhado pelos filhos.

Em nova eleição autárquica, pedem-lhe que aproveite a sua experiência e que aceite a candidatura à presidência da Assembleia de Freguesia. Avança e vence as eleições.

De tudo isto e da vontade de ser útil aos outros, de vencer a inércia da cadeira de rodas me falou longamente o amigo Z. naquela tarde de Verão, á sombra de uma frondosa tangerineira, enquanto apreciava a pintura dos muros do pequeno quintal, em vésperas do casamento do filho mais velho.

Há muito que não conversava com o Z. Saí de ao pé dele com a alma cheia de fé na vida, aliviado das pequenas canseiras do dia-a-dia, ciente da pequenez de quem de uma dor de dentes faz, às vezes, uma tragédia.

O Z. mostrou-me como é possível, mesmo paraplégico, mesmo na cadeira de rodas, ter fortaleza de alma para ser alavanca de um mundo melhor.
Bernardino Chamusca
Início


Primeira Página Página Seguinte