Eclesial:

ACTOS E ACTAS

Pela segunda vez

Foi um livro que fez as minhas delícias e as de muitos chamados "militantes" da A. C., mais porpriamente da J.O.C. Foi um romance que hoje se pode chamar histórico em mais do que um sentido. Chamava-se "Pescadores de Homens" e o título correspondia exactamente à obra, o que não acontece nos romances de hoje a que se dão sugestivos títulos que em nada correspondem às obras. Um outro escritor avançou mais ainda na Questão e escreveu um outro romance "Os Santos vão para o Inferno" em que abordou a saga dos Padres Operários. A primeira meia metade deste século assistiu a actos e a testemunhos de coragem e desassombro apostólico que desmentem tudo quanto se diz sobre desafectação em relação à Igreja nos dias que correm. Não sabem o que dizem muitos deprimidos e neuróticos cristãos que falam à boca cheia, e de coração vazio, sobre desfazamento e desencontro da Igreja em relação ao Mundo.

É verdade que, no chamado Ocidente cristão, ainda não sofremos até ao sangue na "luta contra o Pecado" (Hebreus 12,4). Pecado do Mundo, reino das Vaidades e dos Horrores. E os santos, na sua força de Povo e na generalidade do Género, ainda não desceram ao Inferno, ainda não se fizeram ao Mar Largo para as grandes pescarias da Graça, o Fermento ainda não se perdeu na Massa, pois há séculos que se têm limitado a pescar junto da costa, por medo das tempestades e dos grandes espaços, ágorofobia da "neurose cristã". Ganharam medo aos Tempos Modernos e criaram repugnância aos males do Século, história do 2º Milenário em que as reformas das Igrejas se fizeram sob o fundo da fuga ao Mundo, esquecidos de que "Deus amou de tal maneira o Mundo que lhe entregou o seu Cristo" e "sobre toda a Carne derramou a sua Santa Inspiração".

É verdade. Mas também é verdade que nunca, sobretudo neste século, nos faltaram Santos que nos puseram em questão os nossos medos e as nossas preguiças. Antão, que foi para o deserto, sem fugir ao Mundo, tem hoje uma multidão de seguidores que, sem ser do Mundo, vivem em pleno Mundo. E Francisco, que não conseguiu convencer os seus frades menores que era na Cidade que era preciso entrar e não se barricar em conventos e mosteiros, nem meter dentro de hábitos que não fazem o monge, Francisco poderia hoje dizer que no seio da Igreja e no meio do Mundo há "franciscanos" aos montes que fazem as delícias dos olhos de Deus e as alegrias de quantos os conhecem.

Se há século em que o nosso modo de estar no tempo haveria de ser caracterizado por uma grande alegria e simplicidade, esse é o fim do século XX, que assiste em tudo quanto é sítio à mais fenomenal, epifânica! manifestação dos filhos de Deus. Por favor, não vejam a Igreja nem pelos olhos dos Clérigos nem pelos olhos dos Laicos. Essa gente é velha e todas as suas questões estão ultrapassadas. Mas não será que o despertar dos Leigos, pelo regresso do Medo em tempos desesperados, não vai trazer-nos o crepúsculo da nossa presença e acção no Mundo? O Manifesto, que anda por aí à procura de subscritores, revela grande confusão, misturando o melhor com o pior. Ou será que o Senhor vai ter que pela segunda vez (Jonas 3,1) nos mandar a Nínive, aonde não queremos ir, ou aonde queremos ir mas para baquear diante dos vícios da Cidade, para negociar a Rendição?

O Senhor quis fazer de Israel um viveiro, mas o Povo de Deus preferiu ser um canteiro. Será que os Católicos caíram no mesmo erro? De povo, Povo de Deus, os Leigos têm o nome, Povo que é reino, Reino de sacerdotes. Será que nunca mais nos libertaremos de Clérigos e de Laicos? Durante séculos tentaram convencer-nos que a força da Igreja está na sua hierarquia. Mas as sandálias dos pescadores são sapatos de setim?

Nós, de facto, já estamos no Mundo, e o nosso problema é a dificuldade de estar onde estamos, porque o Desassossego (que o diga Pessoa!) tem-nos num sítio com o pensamento noutro sítio, nosso grande desconforto: na Terra com o pensamento no Céu?!... Ora, o Céu já está na Terra, "à esquina da minha rua", cantava o P. Duval.
Leonel Oliveira
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