| Eclesial: |
É verdade que, no chamado Ocidente
cristão, ainda não sofremos até ao sangue
na "luta contra o Pecado" (Hebreus 12,4). Pecado
do Mundo, reino das Vaidades e dos Horrores. E os santos, na sua
força de Povo e na generalidade do Género, ainda
não desceram ao Inferno, ainda não se fizeram ao
Mar Largo para as grandes pescarias da Graça, o Fermento
ainda não se perdeu na Massa, pois há séculos
que se têm limitado a pescar junto da costa, por medo das
tempestades e dos grandes espaços, ágorofobia da
"neurose cristã". Ganharam medo aos Tempos
Modernos e criaram repugnância aos males do Século,
história do 2º Milenário em que as reformas
das Igrejas se fizeram sob o fundo da fuga ao Mundo, esquecidos
de que "Deus amou de tal maneira o Mundo que lhe entregou
o seu Cristo" e "sobre toda a Carne derramou
a sua Santa Inspiração".
É verdade. Mas também
é verdade que nunca, sobretudo neste século, nos
faltaram Santos que nos puseram em questão os nossos medos
e as nossas preguiças. Antão, que foi para o deserto,
sem fugir ao Mundo, tem hoje uma multidão de seguidores
que, sem ser do Mundo, vivem em pleno Mundo. E Francisco, que
não conseguiu convencer os seus frades menores que era
na Cidade que era preciso entrar e não se barricar em conventos
e mosteiros, nem meter dentro de hábitos que não
fazem o monge, Francisco poderia hoje dizer que no seio da Igreja
e no meio do Mundo há "franciscanos" aos montes
que fazem as delícias dos olhos de Deus e as alegrias de
quantos os conhecem.
Se há século em que o
nosso modo de estar no tempo haveria de ser caracterizado
por uma grande alegria e simplicidade, esse é o fim do
século XX, que assiste em tudo quanto é sítio
à mais fenomenal, epifânica! manifestação
dos filhos de Deus. Por favor, não vejam a Igreja nem pelos
olhos dos Clérigos nem pelos olhos dos Laicos. Essa gente
é velha e todas as suas questões estão ultrapassadas.
Mas não será que o despertar dos Leigos, pelo regresso
do Medo em tempos desesperados, não vai trazer-nos o crepúsculo
da nossa presença e acção no Mundo? O Manifesto,
que anda por aí à procura de subscritores, revela
grande confusão, misturando o melhor com o pior. Ou será
que o Senhor vai ter que pela segunda vez (Jonas 3,1) nos mandar
a Nínive, aonde não queremos ir, ou aonde queremos
ir mas para baquear diante dos vícios da Cidade, para negociar
a Rendição?
O Senhor quis fazer de Israel um viveiro,
mas o Povo de Deus preferiu ser um canteiro. Será que os
Católicos caíram no mesmo erro? De povo,
Povo de Deus, os Leigos têm o nome, Povo que é reino,
Reino de sacerdotes. Será que nunca mais nos libertaremos
de Clérigos e de Laicos? Durante séculos tentaram
convencer-nos que a força da Igreja está na sua
hierarquia. Mas as sandálias dos pescadores são
sapatos de setim?
Nós, de facto, já estamos no Mundo, e o nosso problema é a dificuldade de estar onde estamos, porque o Desassossego (que o diga Pessoa!) tem-nos num sítio com o pensamento noutro sítio, nosso grande desconforto: na Terra com o pensamento no Céu?!... Ora, o Céu já está na Terra, "à esquina da minha rua", cantava o P. Duval.
| Leonel Oliveira |
| Início |
| Primeira Página | Página Seguinte |