1. Os jovens e os moços. Importa voltar a algumas considerações aqui produzidas há duas semanas atrás, a propósito daquelas sondagens de rua que as estações de televisão gostam de fazer, e têm boas razões para isso, uma vez que correspondem ao espírito da televisão imediatista: dão a ilusão do real, parecem sinceras e ficam baratas. Já imaginaram o trabalhão que dava fornecer aos espectadores pesquisas de opinião honestas e científicamente fundamentadas, e apresentadas de uma forma séria?
Num desses concursos em que se dão prémios se a gente for lá dizer o nome e quantos anos tem, o que constitui uma actividade de grande alcance cultural, ninguém diga que as nossas televisões não estão atentas à realidade sócio-cultural que as rodeia, porque é assim que a gente pergunta às criancinhas quando não sabe mais que perguntar, fazia-se um interessante inquérito para saber, sem margens de dúvida, o que pensam os portugueses.
A questão de fundo era originalíssima e cheia de sabedoria: "o que faria com um milhão de contos?". Apreciei sobretudo a quantia, que parece um orçamento para a construção de algum troço de via rápida.
As respostas, organizadas com o rigor analítico permitido pela distanciação no tempo e pela ausência de registos escritos, poderiam dividir-se em dois conjuntos: a dos mais velhos (entendendo por mais velhos os que passam já dos trinta), as dos etariamente indefinidos, e as dos mais novos (que são, como é sabido, os que ainda não chegaram aos vinte).
As dos mais velhos insistiam em ideias como estas, aceitavelmente originais: deixar de trabalhar, passear por esse mundo, comprar um automóvel novo, ir por aí gastar tudo até acabar.
Houve depois um certo sector intermédio, meio híbrido entre novos e velhos, que afirmava, mais altruisticamente: ajudar uns familiares, melhorar a casa, fazer umas obras...
Vinha depois o sector dos mais novos. Aqui entra a estupefacção: a maioria deles declararam coisas inadmissíveis para a nossa mentalidade consumista. Que apoiariam instituições de caridade, que dariam tudo para associações beneficentes, que ajudariam os que precisassem.
O que daqui fica é uma reflexão muito séria: enquanto os adultos se preocupam com uma perspectiva egoísta, consumista e centrada nos seus próprios interesses, os jovens quase não falaram de si e pensaram em outros que necessitam. Manifestaram um sentido de solidariedade e de generosidade que deveria envergonhar a sensatez interesseira daqueles sobre cujos ombros pesam os anos e (dizem, para se justificar) as responsabilidades. Os jovens demonstraram, assim, num aparentemente inócuo inquérito de rua, a sua sensibilidade perante um dos ensinamentos mais importantes da doutrina social da Igreja (e do moderno sindicalismo), oriundo das fundas raízes evangélicas: o sentido e o valor social do dinheiro e da riqueza. Os bens materiais nunca são meramente privados: a propriedade privada só se justifica se for ordenada para o bem social.
O problema, porém, é o mal de todos os jovens: não ficam jovens toda a vida, tornam-se velhos com excessiva rapidez. Conhecemos as antigas generosidades revolucionárias de muitos que hoje se inseriram em empresas "de sucesso, competitivas e viradas para o futuro, capazes de responder às solicitações do mercado", ou então em actividades políticas de grande êxito, nas quais fazem o supremo sacrifício de procurarem "o que é bom para o partido e para os portugueses". Aqui auferem humildemente a pouquidão dos seus rendimentos, pensando sempre no grave problema da taxa de desemprego (não nos desempregados) para esgrimir a favor da sua acção, se é favorável, ou contra a acção dos outros, se é desfavorável.
As generosidades juvenis transformaram-se nas inquietações adultas; o desprendimento mais ou menos alegremente inconsciente dos verdes anos desembocou no beco sem saída da ambição, do desejo do poder, do interesse pela acumulação de riqueza, quando os anos amadurecem.
Assim, por esta via do simples realismo, se esmorece o meu entusiasmo pela atitude generosa dos jovens. Se lhes dessem o dinheiro hoje, bem ia a coisa; se lhes dão o dinheiro amanhã, temos o caldo entornado. Oh! A inconsistência da generosidade!
Levemos um pouco mais adiante esta nossa interessante investigação.
Já viram a ideia que os media nos dão da juventude: andam todos a fugir da sida, vivem à procura do preservativo, sujeitos inconscientes dos grandes perigos da droga, exibem-se convulsionadamente em programas desmiolados de televisão, sobrevivem metidos em discotecas alcoolizadas e fumarentas até às tantas da madrugada e encontram-se em mega-concertos que fazem as delícias do universo social consumista e ambicioso, de cuja estrutura e mentalidade eles são apenas as vítimas actuais, para se tornarem (alguns deles) os seus agentes futuros.
Mas uma outra realidade, plausível e esperançosa, do universo juvenil traduz-se pelo inverso: a sensibilidade espontânea à generosidade, a abertura exemplar à colaboração com os outros, a inquietação pelos mais desfavorecidos, o sentido íntimo da ajuda fraterna. As pessoas atentas sabem ler estes sinais nas numerosíssimas actividades que os jovens realizam em todo o lado: nas escolas, nas paróquias, nos grupos juvenis, nas organizações de solidariedade.
Destas duas mensagens, qual a que passa? Se cada um de nós definisse, com pruridos de seriedade, a juventude de hoje, qual destas ideias transmitiria preferencialmente?
2. Ver e ler. As lusas originalidades, quase sempre inconscientes e tidas por universalmente normativas, manifestam-se e exibem-se de quando em quando nas páginas e nas pantalhas.
Um dia destes um jornal dos nossos revelava que os portugueses eram, de todos os habitantes de países europeus, os que liam menos jornais, incluindo os mesmíssimos gregos que escrevem os jornais naquelas letras esquisitas que ninguém entende e ficam quase sempre a par de nós nos critérios de convergência e nem sequer escrevem Grécia, mas ELLAS. Pois mesmo o raio dos gregos liam mais jornais do que nós. Não será preciso ir longe para se ficar a saber que também são os portugueses os que lêem menos livros. Claro, quem não lê jornais, sobretudo a VP, como pode ler livros?
Uma outra constatação verdadeiramente imprevisível, veiculada também pela imprensa de vez em quando, revela que os portugueses são os europeus que vêm mais horas de televisão. E as crianças portuguesas batem as suas congéneres comunitárias por larga margem, no que se refere ao acto cultural de permanecer junto do televisor.
Esta originalidade terá a ver com a questão da chamada "literacia"? Terá a ver com o nossos desenvolvimento sócio-económico? Será que a questão cultural é uma mera sequela das disponibilidades económicas dos cidadãos? Ou será que uma racionalização da utilização do dinheiro poderia permitir uma maior atenção à informação e à formação, portanto aos bens culturais? Isto é, será possível que uma informação e uma consciencialização fortes para os domínios diversificados da cultura conduziriam à descoberta de processos de rendibilização dos bens culturais da pessoa e das famílias?
Ora aí estão algumas questões propiciadoras de oportunas análises sociológicas.
As quais se deverão estender no sentido de pesquisar a relação entre televisão e domínio dos dados culturais, televisão e informação global e completa, sobre o papel do ver e do ler, quiçá da sua complementaridade, e de como tudo isto pode ser ensinado e aperfeiçoado na Escola - que terá que ser cada vez mais a educadora da sociedade em vez de ser o seu retrato.
| C.F. |