De tradição popular mas bem interpelante para todos, mais uma vez, a procissão do Corpo de Deus marcou a Cidade pela solenidade do gesto. Seria menos gente que em anos anteriores, mas o povo que fora sensibilizado ali esteve para manifestar a sua Fé e as gentes do coração do Porto souberam respeitar, com invulgar nobreza, um tal acto religioso. O percurso, da igreja da Trindade até à Sé, parece modelar, uma vez que essa igreja, que é a maior da Cidade, oferece as melhores condições para os momentos de adoração do Santíssimo e para a organização da Procissão. E o Terreiro da Sé, verdadeira esplanada sobre a Cidade, tem todas as condições e simbologia para a Bênção.
Na mensagem que D. Júlio proclamou no Terreiro da Sé, lembrou que os cânticos e orações devem recordar que «a saciedade dos corpos está estreitamente ligada à saciedade dos corações» e que «o pão eucarístico» deve transformar o coração do homem para que ame os seus irmãos e se empenhe de modo que a ninguém falte «o pão, a cultura, a liberdade e a justiça». E acrescentou: «A nossa fidelidade à Eucaristia passa pelos pobres, pela solidariedade cristã com todos».
Acentuou depois que «uma procissão é uma viagem de peregrinos» que lembra «a grande peregrinação da vida» em que só o homem pode fazer perguntas. Nessa viagem de crentes «com Aquele em Quem acreditam» vão juntos o Redentor e os redimidos, os culpados e os perdoados. E nos dias seguintes, continua essa procissão da vida em busca de Deus. N'Ele o homem reconcilia-se consigo mesmo e «realiza a reconciliação com Deus, que se chama a salvação».
Nesse dia, de manhã, na celebração que teve lugar na Sé, D. Júlio recordou a Eucaristia e a sua relação com a comunidade que celebra, a Igreja, salientando que na Eucaristria se cumpre a promessa que Jesus fez de ser alimento de uma vida para sempre. Assim, pela Eucaristia, centro de toda a vida e liturgia cristãs, surge uma nova aliança e um culto novo, e uma nova relação com Deus e com toda a humanidade.
Advertiu, por isso, contra hábitos
de pouca participação na Liturgia e apelou a uma
maior solidariedade e comunhão entre os que pertencem à
mesma comunidade, «partem o pão juntos e vivem o amor
fraternal». E acrescentou que «temos de converter-nos
à amizade e à fraternidade, ao sorriso e ao acolhimento»
e necessitamos de imaginação criadora para conseguir
que as nossas asembleias litúrgicas e de oração,
especialmente a Eucaristia, sejam reunião familiar»,
pois a Eucaristia «é impossível sem comunidade
de amor». E assim «quando prescindimos da comunidade
cometemos um absurdo existencial, porque querer chegar até
Deus sem passar pelos irmãos, nem é natural nem
sobrenatural».
Música e Palavra
Nos três dias anteriores houve na Sé um tríduo preparatório do Corpo de Deus. Na 2ª-feira, à noite, o Cón. Doutor Carlos Azevedo orientou um encontro de reflexão espiritual. Ajudou a olhar a Eucaristia em quatro perspectivas, desde o «reviver do sacrifício redentor da Cruz, carregado de sentido» e como «alimento de caminhantes e banquete de energia renovadora», até ser encarada como «memorial de uma paixão vivificante pela verdade de um culto vital» e «contemplação de um mistério, fonte de nova evangelização».
A meditação destas perspectivas fez-se enquanto o Coro da Sé Catedral do Porto apresentava: Sicut cervus, de Palestrina, Ave Verum, de William Byrd, Lauda Sion, de Palestrina, Pange Lingua e Locus Iste, de A. Bruckner.
Na 3ª-feira, às 21,30 horas, houve concerto de Órgão, pelos jovens organistas Filipe Veríssimo e Marco Oliveira, que apresentaram obras de J. S. Bach e de Mendelsson-Bartholdy. Na 4ª-feira, os jovens do Porto promoveram uma Velada de Oração a que presidiu D. João Miranda, bispo auxiliar.
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