"Muito obrigado, Senhor Arcebispo"

- foi o sentir da Diocese, expresso na tarde de sábado, em solene sessão decorrida na Casa Diocesana de Vilar sob a presidência de D. José Augusto, administrador diocesano

Representantes de toda a diocese - bispos, padres, religiosas, religiosos e leigos - acorreram à Casa Diocesana de Vilar, Porto, no sábado pelas 15 horas, para manifestarem a sua gratidão a D. Júlio Tavares Rebimbas, arcebispo-bispo emérito do Porto, pelo modo como presidiu a esta Igreja ao longo de 15 anos. D. José Augusto, administrador diocesano, deu a sua direita a D. Júlio colocando-o no lugar da presidência.

Em nome dos padres e dos religiosos falou o Cón. António dos Santos, que foi Vigário Geral, e pelos leigos o Prof. Doutor Serafim Guimarães, que conhece D. Júlio desde a infância e pertence à Pastoral Familiar. Ao Cón. Dr. António Taipa, presidente do Cabido Portucalense, coube iniciar a sessão com "uma palavra de justificação" que apresentou os dois oradores e a D. José Augusto encerrá-la. O Cón. Orlando Costa foi o responsável do protocolo e o Coro da Sé Catedral do Porto, sob a direcção do Maestro Eugénio Amorim, a todos brindou com breves mas belas melodias que relembraram outros momentos da vida desta Diocese: "Dixit Dominus", de Manuel Tavares, "Locus iste", de A. Bruckner, "Regina Coeli", de Rodrigues Esteves, e "Eleib Bei Uns", de Rheinberger.

Bem significativa foi a leitura, feita por D. José, da mensagem que lhe foi dirigida pelo Cardeal Sodano, Secretário de Estado do Vaticano, para que a transmitisse a D. Júlio: "Sumo Pontífice saúda essa Igreja local, representada e congregada na homenagem de gratidão e despedida ao Pai e Guia que Deus lhe deu últimos quinze anos na pessoa de Dom Júlio Rebimbas, cujos luminosos exemplos de pastor solícito perdurarão na afectuosa lembrança e oração de seus filhos espirituais. Na dolorosa separação de pessoas e coisas queridas será motivo de consolação a certeza do amplo e bom serviço ao Reino de Deus, desde Algarve até Alto Minho e finalmente nessa Igreja que toma sede e nome da Cidade Invicta. Como expressão de sentida gratidão e fraterna estima ao Senhor Dom Júlio e auspício de abundantes favores cele! stes s obre seus anos futuros, abraçados em serena e amorosa entrega desígnios da Providência divina, Santo Padre concede-lhe extensiva ao novo Pastor, a Vossa Ex.cia Dom José com bispos auxiliares, ao clero, consagrados e fiéis leigos diocese Porto especial Bênção Apostólica".

Também o Bispo eleito do Porto e Administrador diocesano de Viana do Castelo, D. Armindo Lopes Coelho, enviou a D. José uma palavra de homenagem para que a transmitisse nesse dia a D. Júlio, "venerando bispo emérito do Porto": "Neste dia em que a Diocese do Porto se concentra em Assembleia para homenagear V. Ex.cia e lhe agradecer a actividade episcopal e pastoral, fecunda e exemplar, que aí exerceu ao longo de mais de 15 anos, permita-me que junte a muinha voz a esse coro de gratidão e louvor. Também eu tenho motivos para estar presente, ao menos desta maneira. Mas não estou a despedir-me de V. Ex.cia Rev.ma, pois conto ir encontrar a sua presença amiga e simpática, o seu exemplo de bondade cativante, bem como a palavra de conselho e solicitude eclesial a que um Bispo - um Bispo como o Senhor D. Júlio - não pode resignar. Com um abraço de fraterna amizade e muita admira&c! cedil;ão, Armindo Lopes Coelho, Bispo eleito do Porto, Administrador diocesano de Viana do Castelo".

 

Com o Bispo emérito

"Evidente" foi considerada pelo Presidente do Cabido esta homenagem a D. Júlio ao concluir quase 32 anos de "fecunda e feliz vida episcopal", 15 dos quais nesta Igreja diocesana, onde foi servo, irmão e amigo, presidindo sempre "como irmão" e tendo por lema fazer transparecer a sua autoridade na "entrega de si mesmo no exercício do ministério da caridade, na humildade e discreção de quem se esquece de si para procurar o bem das gentes que o Supremo Pastor lhe confiara".

O Cón. Taipa lembrou depois que D. Júlio sempre teve o apoio da gente que lhe foi confiada e que, agora numa nova etapa da vida, deverá saborear "a grandeza do passado" que lhe dará um porvir de muita paz. E acrescentou que este "encontro familiar de gratidão e homenagem, simples mas sincero" foi para dizer "que valeu a pena o trabalho, o esforço, a canseira e a abnegação com que presidiu aos destinos desta Igreja" e que a Igreja do Porto continuará "a prestar-lhe o mesmo acolhimento, atenção e veneração" que lhe rendeu até agora.

Ao Prof. Dr. Serafim Guimarães coube lembar algumas curiosidades do passado, quando o então seminarista Rebimbas se perfilava numa foto, tirada em Vilar, ao lado de 36 outros "rapazes de ar feliz" do 4o. ano do Seminário, um dos quais irmão do Dr. Serafim. Na parede da casa de seus pais, lá se encontrava, na primeira fila, "de cabeça levantada e de rosto sério e vivo", acompanhado de uma gente bem humorada "e com saudável apetite", muitos dos quais de Riomeão, Maceda, Válega, Avanca e Murtosa, que, há 60 anos, eram o enlevo das famílias por se encaminharem para "o bem supremo" de serem padres. Foi este passado que D. Júlio, "uma das mais marcantes figuras do Episcopado", nunca rejeitou, tendo afirmado mesmo, em 1982 quando entrou no Porto, que seus pais se privaram de tudo para que ele fosse padre.

Serafim Guimarães sublinhou ainda que foi aos leigos que D. Júlio, "um bispo do seu tempo", dedicou as primeiras preocupações, por "exigência dogmática" e não por motivos sociológicos ou organizativos. E acrescentou que sempre o vira "atento, esclarecido, lúcido e... muito humano", intransigente com o erro, mas no "mais completo amor às pessoas".

Destacou depois o seu dinamismo realizador bem visível no Conselho e no Directório Pastoral, no apelo aos conselhos paroquiais, na pastoral familiar, escolar e universitária, e nos congressos de Leigos e da Família. Mas também no Centro Regional da Universidade Católica, no apoio a algumas publicações, exposições, como a dedicada a Santo António, e na recuperação de órgãos de tubos e de edifícios, uma obra que se coroa com o Centro Diocesano de Vilar, "orgulho de uma cidade, glória de uma diocese, obra de um bispo".

Concluiu Serafim Guimarães com a lição de "fidelidade à Igreja" e à palavra dada que D. Júlio sempre deu, além do testemunho de "alegria e verdade" que "vem da Fé,,,,, o sorriso do mundo". E, num "bem haja" final, lembrou o seu esforço de levar a Fé à rua, seja no Corpo de Deus ou nas habituais idas pela cidade.

 

"Não dizemos adeus!"

"Fazer memória" foi a expressão do Cón. António dos Santos para classificar este convívio "amigo e fraterno" com o Pastor e Mestre dos últimos 15 anos. Tratou-se de "celebrar o tempo" e não de "cerimónia de despedida". Foi "reconhecimento pela obra realizada" e manifestação de amizade e apreço por quem criou "um vínculo misterioso" com este Povo de Deus e assim se torna "intemporal", permanecendo para além das vicissitudes da história.

Explicou o Cón. Santos que, na sucessão apostólica, cada bispo, com os seus dons e personalidade, "continua o que foi antes e prepara o que há-de vir", deixando a sua marca. E, em D. Júlio, louvou "a coragem" da realização de um velho sonho da Diocese, a Casa de Vilar, "a jóia da coroa". Sublinhou o trabalho "infatigável" dos bispos auxiliares que renovaram a vida da Diocese e enalteceu a colaboração do presbitério em seriedade, respeito e lealdade, caminhando e amando a Igreja, sem rupturas, cisões ou rebeldias.

Referiu depois as características deste tempo para acrescentar que são precisos hoje "padres providos de uma cultura humanística e teológica", capazes de ocupar o devido lugar na sociedade e ser "credíveis pelo seu saber, cultura e alto sentido dos problemas".

A D. Júlio apontou a nova etapa como propícia ao repouso e à contemplação, "um espaço e um tempo abertos à memória do tempo vivido, transfigurado pela lembrança enriquecida dos tesouros encontrados ao longo do caminho que percorreu" e que valeu a pena. E, sem dizer "adeus", concluiu: "Bem haja" pelos 15 anos de doação a esta Igreja.

 

"Pensar o futuro"

D. Júlio agradeceu a todos e lembrou que "a vida é sempre projecto que se constrói a partir do presente". Falou dos problemas deste tempo e apontou a educação como prioridade, tendo acrescentado que, no entardecer da vida, deseja viver "na ética da serenidade" o futuro, "o mundo" que está à sua frente e que lhe pede a capacidade de, mais uma vez, saber recomeçar.

Disse que não fizera mais do que a sua obrigação e que quer continuar a pôr ao serviço de todos a sua experiência e imaginação. "Um grande abraço, até sempre" foi a palavra final que arrancou da assembleia uma longa salva de palmas.

D. José concluiu lembrando a oportunidade desta manifestação de gratidão "por parte da Igreja" e aplicou a D. Júlio a expressão de Paulo a Timóteo: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a Fé", tendo acrescentado que o Justo Juiz saberá recompensar quem ofereceu e esperou, com amor, Aquele que há-de vir. Acrescentou que, ainda que de forma diferente, "a Igreja continuará a contar com o seu contributo para que a Fé cresça e se fortaleça no coração dos nossos contemporâneos" e que D. Júlio poderá contar "com o calor humano dos amigos e anteriores colaboradores", pois esta Diocese revelou ter "um grande coração..., a gratidão é a memória do coração". E essa será a "companhia agradável" que D. Júlio deverá recordar nos anos que o Senhor lhe con! ceder.